segunda-feira, 7 de março de 2011

escravatura e servidão na gênese literária

Eu não disse nada para comparar. Comparações são fáceis e inúteis, produzem apenas apreciações de clichê. Não chegam a penetrar no coração da criação pessoal; e justamente isto é minha mui modesta ambição. Para tentá-lo, vou escolher um processo estranho, estranho como o meu assunto. Vou construir uma teoria para apanhar minha vítima, vou construí-la de pedaços de outras criações, alheias, com as quais Graciliano Ramos não tem nada que ver, vou colher esses pedaços, entregando-me ao jogo da livre das associações. "Gastei meses construindo essa Marina que vive dentro de mim, que é diferente da outra, mas que se confunde com ela". Vou construir o meu Graciliano Ramos.
"Meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios  do copiar, cortando palhas de milho para cigarros, lendo Carlos Magno, sonhando..." Logo me lembro do pintor incomparável da vida estática, imóvel, inconsciente, nos "engenhos" escravocratas da Rússia tzarista, daquele Gontcharov de quem me lembrei quando li comparações do Brasil escravocrata com a Rússia servil. Os romances de Gontcharov pintam classicamente um mundo primitivo, amoral, "a-trabalhador", preguiçoso demais para trabalhar, amar, viver. Parecem idílios de pura "art pour l'art"; são acusações terríveis contra o regime, contra o Estado russo, que quis movimentar esse mundo imóvel por pretensas reformas econômicas e sociais. O  primeiro romance de Gontcharov chama-se: Uma história simples; o último: A queda.
Otto Maria Carpeaux in Graciliano Ramos, Angústia, 25ª Ed., Record, São Paulo, 1982, p. 240-1.

o fogo se apagou

Homem de poucas palavras, trabalhador, o sujeito mais sério do mundo. Dedicava-se a vários ofícios, era agricultor, redigia procurações e petições. Beirando os setenta, começou a vender macacos. Os olhos cansaram, a memória emperrou, os braços descarnados não tiveram força para manejar a enxada, a garlopa, o martelo de ferreiro e a tesoura de metais. Seu Evaristo fabricava muitas coisas, mas não se ajeitava em nenhuma profissão. E quando a velhice chegou, sentiu-se fraco, uma tremura nos dedos, que seguravam mal o cajado. Andando formava dois arcos: um por detrás, nas pernas, outro adiante, no peito; sentado firmava as mãos na extremidade do cacete, e sobre as mãos, duras e peludas, de veias enormes, assentava o queixo, donde pendiam pelancas escuras que balançavam com teias de pucumã. Foi baixando, baixando, e na casinha que se escondia na Rua da Cruz o fogo se apagou. Nos meses compridos daqueles invernos de serra seu Evaristo e a mulher tremiam e começavam a tresvariar, porque a fome era grande. À noite andavam tropeçando nos cacarecos, pois na casa não havia candeia, olhavam a rua triste sob a chuvinha impertinente de que embaçava os vidros dos lampiões esmorecidos. Apertavam-se para enganar o frio [...]. 
Graciliano Ramos, Angústia. 25ª Ed., Record, São Paulo, 1982, p. 156-7.

soltos a voar

D. Rosália resfolegava e tinha uns espasmos longos terminados num ui! medonho que devia ouvir-se na rua. Antes desse uivo prolongado o homem soltava palavrões obscenos. Parecia-me que meu quarto se enchia de órgãos sexuais soltos, voando. 
Graciliano Ramos, Angústia. 25ª Ed., Record, São Paulo, 1982, p. 106.

remédios brutos

Lembrava-me de outro indivíduo infeliz, um sertanejo que vi há muitos anos, quando ele saía da prisão depois de cumprir sentença. Era um cearense esfomeado que tinha aparecido na vila em tempo de seca. Esmolambado, cheio de feridas, trazia escanchada no pescoço uma filhinha de quatro anos. Tinham ido morar na rua das putas e viviam de esmolas. Um dia as vizinhanças ouviram gritos na casinha de palha e taipa que eles ocupavam. Juntaram-se curiosos, olharam por um buraco na parede e viram o homem na esteira, nu, abrindo à força as pernas da filha nua, ensangüentada. Arrombaram a porta, passaram o homem na embira, deram-lhe pancada de criar bicho — e ele confessou, debaixo do zinco, meio morto, que tinha estuprado a menina. Processo, condenação no júri. Anos depois os médicos examinaram a pequena: estava inteirinha. O que havia era sujidade e um corrimento. Tratando a menina com remédios brutos da medicina sertaneja, o homem tinha sido preso, espancado, julgado e condenado.
Graciliano Ramos, Angústia. 25ª Ed., Record, São Paulo, 1982, p. 68.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Escrever

Habituei-me a escrever, como já disse. Nunca estudei, sou um ignorante, e julgo que meus escritos não prestam. Mas adquiri cedo o vício de ler romances e posso, com facilidade, arranjar um artigo, talvez um conto. Compus, no tempo da métrica e da rima, um livro de versos. Eram duzentos sonetos aproximadamente. Não me foi possível publicá-los, e com a idade compreendi que não valiam nada. Em todo caso acompanharam-me por onde andei. Um dia na pensão de d. Aurora, o meu vizinho Macedo começou a elogiar um desses sonetos, que por sinal era dos piores, e acabou oferecendo por ele cinqüenta mil-réis. Nem foi preciso copiar: arranquei a folha do livro e recebi o dinheiro, depois de jurar que a coisa estava inédita. Macedo transigiu comigo umas vinte vezes. Infelizmente voltou para São Paulo sem concluir o curso.  Desde então procuro avistar-me com moços ingênuos que me compram esses produtos. Antigamente eram estampados em revistas, mas agora figuram em semanários da roça, e vendo-os a dez mil-réis. O volume está reduzido a um caderno de cinqüenta folhas amarelas e roídas pelos ratos.
Graciliano Ramos, Angústia. 25ª Ed., Record, São Paulo, 1982, p. 47.

Não é ódio

Ninguém falava sequer do ódio aos russos. O sentimento que experimentavam todos os tchetchenos era mais forte que o ódio. Não odiavam, simplesmente não reconheciam aqueles cães russos como gente. Era uma sensação de asco e estupefação ante a crueldade absurda daquelas criaturas, e o desejo de destruí-las, a exemplo de destruir os ratos, as aranhas venenosas e os lobos, era um sentimento natural como o instinto de conservação.
Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 156.

Aul destruído

Sado, em casa de quem Khadji-Murát se detivera, fora com a família para as montanhas, quando os russos se aproximaram do aul. Voltando, encontrou a sua sáklia destruída, o telhado derrubado, a porta e os postes da galeria queimados  e todo interior da casa coberto de imundície. O seu filho, aquele rapazinho bonito, de olhos coruscantes, que tinha olhado com deslumbramento para Khadji-Murát, fora trazido morto para a mesquita, sobre um cavalo coberto com uma japona. Tinha as costas atravessadas por uma baioneta. A mulher de ar venerável, quer servira a refeição a Khadji-Murát durante a sua visita, estava agora com a camisa rasgada no peito, deixando à mostra os seios decrépitos, pendentes, e, os cabelos soltos, mantinha-se curvada sobre o filho, dilacerando o rosto com as unhas e vociferando sem cessar. Sado apanhara a pá e a picareta e fora com os parentes cavar o túmulo do filho. O velho avô estava sentado contra a parede da sáklia destruída e, afinando uma vareta, olhava estupidamente diante de si. Acaba de voltar do seu comeal. Foram incendiada as duas medas de feno que lá havia, quebradas e queimadas as cerejeiras e os abricoteiros plantados pelo velho e, sobretudo, destruídas todas as colmeias. Ouvia-se o uivar das mulheres em todas as casas e na praça, aonde foram levados mais dois corpos. As crianças pequenas urravam, acompanhando as mães. Urrava também o gado faminto, que não recebia mais nada para comer. As crianças mais crescidas não brincavam, encarando os adultos com olhos assustados.
Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 154-5.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O czar Nicolai

A lisonja permanente, asquerosa e sem rebuços dos que o cercavam, reduzira-o a tal estado que não via mais as suas contradições e não fazia mais concordar os seus atos e palavras com a realidade, a lógica ou sequer com o comezinho bom senso, e estava plenamente convencido de que todas as suas disposições se tornavam inteligentes, justas e coerentes entre si, pelo simples fato de provirem dele.
Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 139-40.

Avdiéiev

Avdiéiev se virou mais uma vez, e o doutor passou muito tempo mexendo na sua barriga; finalmente, apalpou a bala, mas não conseguiu retirá-la. Passou sobre a ferida uma atadura, pregou-a com um emplastro pegajoso e saiu. Enquanto o doutor revolvia a ferida e pregava a atadura, Avdiéiev permaneceu deitado, os dentes apertados e os olhos fechados. Depois que o médico foi embora, abriu-os e olhou surpreendido em torno. Os seus olhos dirigiam-se para os demais internados e para o enfermeiro, mas parecia não os ver e estar fixando algo diferente, que o espantava.

Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 75-6.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Eu voltava para a casa, através dos campos. Estávamos precisamente no meado do verão. Fizera-se a limpeza dos pastos, e os camponeses preparavam-se para ceifar o centeio.
Nessa época do ano, há uma variedade maravilhosa de flores: trifólios felpudos e aromáticos, vermelhos, brancos, cor de rosa; margaridas insolentes, malmequeres brancos, jeitosos, de pólen amarelo vivo, com o seu fétido picante, de podridão; a colza amarela, recendendo a mel; campânulas brancas e roxas, altas, semelhando tulipas; ervilhas-de-cheiro; escabiosas ordeiras, flavas, vermelhas, rosas e lilases; a tanchagem de penugem rósea esmaecida e um perfume agradável, quase imperceptível; as centáureas de um azul intenso ao sol, quando desabrocham, e cerúleas, com tons avermelhados, ao anoitecer, quando se vão fanando; e as delicadas flores da cuscuta, que recendem a amêndoa e têm vida muito breve.
Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 21.

Trifólio

Margarida

Malmequer

Colza

Campânula

Escabiosa

Flava (Feno-de-cheiro)

Centáurea

Cerúlea

Cuscuta

Ervilha de cheiro

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Não gosto de revistas eletrônicas

Não de todas elas, é evidente. Mas especialmente de um tipo que tenta imitar as revistas em papel, até com um irritante barulho quando se clica para virar a página. Normalmente elas não têm problemas de conteúdo. Até saudei o surgimento de uma há pouco menos de um ano. Tratava de esportes e poderia ser baixada em formato PDF aos mesmo tempo em que convivia com essa versão que tem os irritantes barulhos de página.

Mas o que irrita ainda mais é a cópia de um formato ultrapassado, que é as da revistas em papel, no ecrã, tela, do computador. Isso é uma estupidez sem tamanho. Quando estou no computador, quero poder copiar o texto, citá-lo, selecioná-lo, mandar pelo comunicador, etc. Portanto, o melhor meio de exibir o texto para o usuário será numa interface desenvolvida em html.

Não, mas essa gente costuma ser demasiado imbecil. Faz a revista numa plataforma tosca, bonitinha porque antiquada ou, no linguajar tacanho deles, vintage. Ora merda, o público não quer saber de coisas bonitinhas, quer coisas que funcionem.

Não, essa gente coloca a revista em formato flash, eu não posso copiar, sequer selecionar um texto. E se me dão a opção de baixar o texto, será naquela formato estúpido chamado pdf, pesado e bem pouco usável, se bem que já é um avanço sobre o flash.

Mas eu desisto antes e recomendo que façam o mesmo. Boicotem gente estúpida na internet. A estupidez deles limitam sua experiência como usuário. Esse tipo de gente castradora não vale o ar que respira.

Não gosto

Da expressão coisa de pele que quer indicar proximidade, intimidade, traquejo com algo. Lugar comum tosco, e que sempre me traz à mente a noção de que para ser íntimo de algo, tenho que ter o contato carnal, pele à pele. Parvoíce em grande estilo: um tipo paga pelos serviços de uma prostituta e teria essa coisa de pele? Expressão ao gosto de jornalistas, espécie de gente a quem foi ensinado comunicar, mas nunca a eles ensinaram o que comunicar.

Aliás, é um espetáculo cômico quando alguém me diz que fez comunicação social. Fico encantado, porque ele teve de fazer um curso para fazer o que as pessoas fazem o tempo todo pelo menos desde os dois anos de idade, que é a comunicação, que só pode ser social pois sempre é direcionada ao outro.

Não gosto, também, de pessoas que usam termos deslocados de seu contexto de significação. Não que eu seja um tipo demasiado reflexivo, mas é que a falta de reflexividade, a falta de cuidado, de critério numa dada comunicação me é completamente desgastante.

E, engraçado, normalmente ela é feita por esses tipos intelectualmente nanicos que dizem ter feito a chamada comunicação social. A comicidade é garantida. O tipo vai e diz que está a ofender a cidade. Hã? A palavra não cabe.

Não se ofende uma cidade ou qualquer outra organização política ou geográfica, como um País ou Estado, se bem que, a depender de certas políticas internacionais, os países possam se tornar sensíveis via serviço diplomático e barrar a entrada de algum crítico. Ó, achamos a palavra adequada! Eu não posso ofender uma cidade, porque afinal de contas, a palavra não cabe: a cidade não tem uma honra subjetiva, não tem uma personalidade, não irá se melindrar. No entanto, posso criticá-la, apontar seus defeitos, quaisquer eles que sejam, o que mormente é feito de maneira objetiva e, possivelmente, não preconceituosa.

Arre, essa gente sem modos. Erros de tradução, quer dizer, tradução criativa ou mesmo preguiçosa também me aborrecem deveras.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O que participa ao gato

Em poucos minutos de forte chuva de verão a casa, nos fundos, ao fim de um corredor de cerca de trinta metros, abaixo mais de um metro e meio do nível da rua, alagava rapidamente. A rua estava tal uma corredeira, embora sem alagar porque seguia em leve declive, o qual se acentuava quanto mais se seguia adiante, até terminar numa baixada alagadiça. Os carros estacionados na rua faziam a água quebrar e avançar sobre as guias, daí para as calçadas e, por fim, para os quintais. O portão de entrada da casa, antecedido por alguns degraus ascendentes, converteu-se numa queda d’água, cujo caudal era deveras maior do que a casa podia beber pelos esgotos. Com a enchente a invadir-lha a casa, a mulher, impotente, se pôs a gritar; os filhos acudiram: tiraram o gradeado do encanamento na esperança de aumentar o escoamento sem se importarem se as escórias trazidas pela água entupir-lhe-iam os canos; ela, porém, continuava a represar; um dos filhos foi ao portão e pôs obstáculos ao avanço da corredeira. Surtiu efeito de pronto. O estrago estava feito, entretanto. A casa estava imersa por uma camada d’água que batia na metade das canelas. Todos os móveis molhados; igualmente pertences vários nas partes baixas das cômodas, guarda-roupas, sapateira; a despensa ficou repleta daquele fluido infecto castanho escuro repleto de baratas a boiar; os móveis, provavelmente, estariam todos perdidos.

E nessa chuva toda, com uma expressão preocupante, estava o gato a tocaiar o que se passava. Seu olhar demonstrava inquietação, o que evidenciava a percepção daquela tragédia comezinha, embora ele mostrasse normalmente uma expressão de afetada indiferença, prova do seu temperamento independente, caracteristicamente felino, poder-se-ia dizer. Em um dado momento, porém, aquela expressão alterou-se, ficou algo desesperada, com os olhos arregalados e pupilas imensamente dilatadas, pondo-se a miar estridentemente, como se sentisse dor, como se alguém lhe pisasse o rabo; mas não, ele miava e olhava para a mulher, e olhava em direção a um ponto qualquer, o qual a mulher demorou a localizar, afinal a situação era toda difícil, toda desesperadora e demover-se das próprias mazelas para se aperceber dos anseios dum gato, àquela hora, não seria algo imediato.

O gato estava a miar e movimentar-se, desceu à cama, no quarto já tomado pela água castanho-negra. Olhava em direção à porta, remexendo-se, retesando a musculatura, girando, miando, crispando-se, olhava para mulher, miava, olhava para objeto de atenção e novamente para mulher, atos repetidos várias vezes. Ela, depois do filho ter dito que a água já não mais invadia o quintal, atinou ao felpudo, e se deu conta de que ele olhava para sua vasilha de ração à deriva na água turva. Logo esboçou um sorriso ao inferir que o gato percebia o desastre, que o seu comedouro a flutuar lhe participava também como perda, pois não lhe era possível vencer a água para tê-lo.

O gato tornou mais leve a sua angústia; a água estava vencida, aparentava já ceder, com a casa dando conta do fluir; o gato sossegou depois de posta a vasilha sobre a cômoda, enxugada de qualquer jeito; o felpudo não buscou a ração, deu-se por satisfeito, aquietou-se na cama, sentado sobre as patas traseiras, contemplando derredor com ares atentos. Ela o contemplou, num curto instante, um minuto, no máximo: realizava o que antes alguém havia dito acerca dos gatos, enfim, e que agora via, de que eles seriam mentalmente próximos das pessoas, o que conferiria, talvez, temperamento similar; talvez isso fosse bobagem, não importava. Observava o gato com sua cabeça desproporcionalmente pequena em relação ao corpo, pois ele era grande, maciço, esbelto e musculado mesmo castrado; ativo e algo brigador, embora não vivesse mais sujo e cheio de cicatrizes; a pelagem brilhava, as patas eram intensamente brancas, como se usasse meias; branco o qual se espalhava pela barriga, peito e boca; pois o dorso, até o focinho e a parte superior dos membros, era malhado de preto sobre uma pelagem cinza escura com o subpelo amarelo pálido. Sob a luz o pelo brilhava bonitamente. Lindo, ela pensava.

Instante terminado. Volta à faina: retirar a água, separar o que por ela não foi arruinado, limpar a escória trazida pela chuva. A labuta seguiu a noite toda.



sábado, 12 de fevereiro de 2011

A beber?

— Como estás, António?
— Nas tintas, Fernando.
— Que tens aí?
— Cachaça, o que mais haveria de ser?
— Não sejas rude, meu velho, oras, não te fiz nada. Apenas queria saber como estavas a passar. Bem, estás a beber já a essa hora?
— Não, Fernando, se me ponho a beber a esta hora é sinal que não estou apenas a beber, e sim que estou a me embebedar, não o percebes?
— Ora, mas por quê? A essa hora?
— Ora, diabo, porque me apeteceu! Se continuares a ser aborrecedor com este interrogatório, peço-te que saia, que deixe-me em paz, que suma daqui. Se, acaso, preferires calar o teu focinho, pegue um copo.
— Sim, é razoável, prefiro o copo.
— Sim, pegue-o e cesse com isto.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Used to be



you are coming home
are you still alone
are you not the same as you used to be
as the sun grows high
and you serve your time
does each day just feel like another lie
now you know
is it just for show
just a foolish game that you hide behind
dont forget the nights
when it all felt right
are you not the same as you used to be
used to be

in a endless night
would you feel the fright
of the age that wasn't
could never be
so we hold it close
when we feel the most
like a love that we could not leave behind
we turn the wheel
to which way we feel
till our thoughts lift
i can not find you there
don't forget the nights when it all felt right
are you not the same as you used to be
used to be

even if i try so hard
would we still be coming to an end
even if we spoke the same words
would we still return as friends
even if its simple from the start
we will give the pieces of the heart
and when there is nothing left to pretend
we will know its coming to an end

even if we try so hard
we will give pieces of our heart
its always good to see you again
even if its coming to an end

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Literatura

...tudo quanto não for vida, é literatura, A história também, A história sobretudo, sem querer ofender, E a pintura, e a música, A música anda a resistir desde que nasceu, ora vai, ora vem, quer livrar-se da palavra, suponho que por inveja, mas regressa sempre à obediência, E a pintura, Ora, a pintura não é mais que literatura feita com pincéis, Espero que não esteja esquecido de que a humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever, Conhece o rifão, se não tem cão caças com o gato, por outras palavras, quem não pode escrever pinta, ou desenha, é o que fazem as crianças...

Saramago, História do Cerco de Lisboa, p. 12

sábado, 18 de dezembro de 2010

Dia

Levantei ao fim da manhã, depois de um estado de semissonolência que me prostrou por bem mais de uma hora; estive a dormir em meio a bagunça, um Nietzsche aqui, Nassar e Rahimi juntos, como que em par, algumas peças de roupas pela cama, um Saramago que estive a ler antes de adormecer na cabeceira, logo ao lado do meu despertador que encantadoramente não se manifestou ao fim da madrugada. É sábado. E a cama, ampla. Ao levantar me prostrei por longas três horas diante do computador, só, sem entabular conversa com ninguém, embora tivesse conectado a três comunicadores. Teimosamente deixei uma janela de conversação aberta, mesmo sabendo que inexoravelmente não conversaria. Passadas as horas, almocei e, depois, passei um tempo curto, não mais que dez minutos, ao telefone. A única forma de diálogo algo duradoura que não fosse, hoje, menos que um mero gracejo. Diálogo tal e qual a todo instante eu tentava observar algum contentamento nos timbres que me chegavam aos ouvidos; não tive tanta felicidade, senti certa tristeza, mesmo algum embaraço, como quem não anseia falar, a conversa durou poucos minutos, senti na voz que me falava, no final das contas, a vontade de encetar um rumo agradável à conversa, algo que me deixou sumamente feliz, mas a conversa já findava, aliás, me amesquinhei nessas poucas palavras doces para por termo a ela; menos de dez minutos, desligamos. Prostrei-me na cama e estertorei num sono curto, equivocado, que me rendeu um sonho de tessitura real e mórbida. Acordei num sobressalto, gastei um tempo estéril a divagar sobre o sonho como quem faz uma autoanálise em busca das motivações inconscientes que engendram tais torpores mentais. Senti-me ignóbil por me ter concedido a sesta: sempre que assim procedo padeço longas horas até conciliar sono à noite. Levantei-me, fui lavar louça do almoço, ensejando não dar vazão às conjecturas que me sobrevinham. Louças lavadas; o cheiro da comida persistia na cozinha e causava fastio. Voltei ao computador, tentei trabalhar, não consegui. Azedume. Livrei-me da languidez das conjecturas. Pensei em por ordem às coisas, a cama, o quarto. Nassar e Rahimi ainda estavam em par, havia um Weber empoeirado na escrivaninha, o que me deixou embaraçado comigo mesmo; os lençóis permaneciam caóticos. O quadro não era de modo algum promissor, afinal havia ainda algumas garrafas vazias, cinzeiros repletos e nauseabundos. Guardei o Weber na estante fazendo uma reverência estúpida a esse tipo recalcitrante. Quando me vi estava só e disseram-me para dar cabo das sobras do almoço se me apetecesse. Não encetei conversas quaisquer. Pus-me a ler sobre cinema, teoria literária e cinema novamente e, mais uma vez e por teimosia, teoria literária. Nessas leituras, desejei mais uma conversa. O telefone chamou até a ligação cair. Por duas vezes, metodicamente. Amuei-me. Depois de menos de uma hora, o telefone toca. Não fui feliz; as palavras me saíam tortas, desabridas, como que flutuando muito acima do contexto; os timbres me eram claros, esboçavam enfado e cansaço, muito embora me alegrassem; afinal os ouvia. Apurei a audição; não deixei escapar nenhum tom, nuance; objetivei dar alento, soei alarmante; a conversação durou um pouco mais, as palavras que ouvi, me confortaram, embora não possa dizer o mesmo das que proferi; fui desastrado; no entanto, estava amesquinhado no meu contentamento. Fiquei a digerir criticamente a falta de jeito, de cuidado; desejei me embebedar: assim o fiz.

poesia e prosa

Não sou bom com poesia, nem com companhias. Saio-me melhor na prosa, embora tu me disseste recentemente que mesmo ela é empolada. Então me vejo num certo apuro, pois mesmo naquilo em que me tomava como aceitável, outrora mesmo bom, não é verdade — embora meu amor próprio, teimoso que é, esteja a dizer-me o contrário. O caso é que hoje queria algo e tentaria dizê-lo via poesia. Desisti. Talvez a poesia, que diz a coisa por si mesma como um acontecer que não se extingue, não seja mesmo o meu métier. A prosa ao contrário, diz um estado, situação, sensação, enfim, de um modo que é capaz mesmo de transcender o que é dito, pois nela é dada a possibilidade de dizer o detalhe e não apenas o estado bruto, uma imagem acabada, coesa, existente por si mesma. E do fragmento, um excerto qualquer perdido entre tantos períodos e orações, se pode captar algo que transcenda o texto, uma perspectiva ou interpretação que traga à baila aquilo que não foi devidamente feito claro ao entendimento, enfim, a prosa tem a capacidade de transcender-se. Talvez esteja a ser injusto com a poesia. Não sou bom com ela. E ela tem sido má comigo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

objectualidades

A diferença profunda entre a realidade e as objectualidades puramente intencionais - imaginárias ou não, de um escrito, quadro, foto, apresentação teatral, etc. - reside no fato de que as últimas nunca alcançam a determinação completa da primeira. As pessoas reais, assim como todos os objetos reais, são totalmente determinados, apresentando-se como unidades concretas, integradas de uma infinidade de predicados, dos quais apenas somente alguns podem ser 'colhidos' e 'retirados' por meio de operações cognoscitivas especiais. Tais operações são sempre finitas, não podendo por isso nunca esgotar a multiplicidade infinita das determinações do ser real, individual que é 'inefável'. Isso se refere naturalmente em particular a seres humanos, seres psicofísicos, seres espirituais, que se desenvolvem e atuam. A nossa visão em geral, e em particular dos seres humanos individuais, é extremamente fragmentária e limitada.

Idem, p. 32

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Em poemas ou romances tradicionais, a preparação especial dos aspectos é bem mais discursiva do que, por exemplo, em certos poemas elípticos de Ezra Pound ou do último Brecht, em que a justaposição ou montagem de palavras ou orações, sem nexo lógico, deve, como num ideograma, resultar na síntese intuitiva de uma imagem, graças à participação intensa do leitor no próprio processo de criação (a teoria da montagem fílmica de  Einsenstein baseia-se nos mesmos princípios).

A personagem de ficção. Candido, Rosenfeld et alli. Ed. Perspectiva, São Paulo, 2002, p. 14.

domingo, 14 de novembro de 2010

Quando te angustias com tuas angústias, te esqueces da natureza: a ti mesmo te impões infinitos desejos e temores.

Epicuro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

É bem, e o resto?

Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. 1: "Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti". Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.


― Machado de Assis.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Falastrão

— Eu?
—Sim, você! O falastrão aqui é você! Quem mais poderia ser, diabos?
— Creio que, para um amigo, Fernando, você é um cara muito rude.
— Eu um tipo muito rude? Na verdade não. Você é que é um rapaz altamente sensível. E míope. Aliás, a sua miopia progride na exata medida da sua sensibilidade. Daí, quanto menos você vê, mais sensível fica.
— Por que me diz isso?
— Por que digo isso, António? Você deveria fazer sentido, enfim, você deveria levar suas ideias até o fim. Mas não, fica a me olhar com esses olhos de cão que acabou de apanhar dono sem...
— Mas — interrompe Fernando, exasperado — eu não estou entendendo.
— Claro, e se você continuar a me interromper, não vai mesmo compreender. O caso é que você fica aí com esses olhos de cão que acabou de apanhar do dono, fica aí como quem não entendeu, como uma vítima indefesa. O fato é que você deixa os demônios que existem apenas na sua mente a conduzir sua vida como se eles fossem efetivamente reais. E não são! Você, se continuar assim, vai ficar muito mais próximo da esquizofrenia do que de mim ou qualquer outro chegado seu. Mas não, dá razão aos demônios. E depois que os lança no focinho dos outros, fica atônito e sem entender as reações das pessoas.
— Mas você está falando do que eu te mencionei.... sobre a... — Pergunta António, com ares contrariados.
— Não, Antônio, estou falando sobre suas conjecturas epistemológicas! É evidente que sim, oras! Que tipo de cara é você? Dá vazão apenas a coisas ruins que poderiam acontecer apenas numa guerra mundial. Ninguém é tão pessimista assim, mas o problema é que seus pensamentos não têm relação com o real. E você os inventa! Os ouve e os despeja nos ouvidos alheios como se eles fossem latrinas. Em vez de dar cabo dos seus demônios por você mesmo, você, ao contrário, lança-os sem refletir com mais cuidado na primeira oportunidade que se lhe apresenta. E quem é que suporta isso, um cara que fala pelos cotovelos as primeiras e, claro, as piores impressões que tem a respeito de tudo o que se passa? Mesmo assim, as coisas ainda estão bem. Você ainda tem a sua pequena, o trabalho, os estudos, enfim, mas tome nota que, se continuar assim, isso não durará para sempre.
— É, é um tanto duro, mas acho que você tem razão...
— É evidente que tenho razão! E não tem nada de muito duro. Você é que é muito mole. E tome tenência, pois se continuar assim serei eu mesmo que o trancarei no manicômio.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Evidente

Tomo tudo que é teu,
escrito, falado ou declamado,
ao pé da letra.

Ou te enfado ou me esborracho.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Escrita medíocre

Essas mentes medíocres simplesmente não conseguem se decidir a escrever como pensam, pois acham que depois o resultado poderia adquirir uma aparência muito simplória. [...] Desse modo, apresentam o que têm a dizer com construções forçadas e difíceis, neologismos e períodos extensos, que circundam o pensamento e acabam por ocultá-lo. Oscilam entre o esforço para comunicá-lo e aquele para escondê-lo. Querem guarnecer o texto de modo que ele adquira uma aparência erudita ou profunda, para que as pessoas pensem que ele contém muito mais do que se consegue perceber no momento da leitura. Sendo assim, esboçam partes do seu pensamento em expressões curtas, ambíguas e paradoxais, que parecem significar muito mais do que dizem (exemplos excelentes desse gênero encontram-se nas obras de Schelling sobre a filosofia da natureza); logo voltam a apresentar seus pensamentos com uma torrente de palavras e uma verbosidade in-suportável, como se fossem necessárias sabe-se lã quais medidas para tornar compreensível seu sentido profundo, enquanto, na verdade, trata-se de uma idéia bastante simples, para não dizer até trivial (Fichte, em seus escritos populares, e centenas de imbecis miseráveis que não merecem ser nomeados, em seus manuais filosóficos, oferecem exemplos em abundância).
— Arthur Schopenhauer.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

altercar

Não sou um tipo dado a mesuras e maneiras corteses com aqueles que me não tenho em boa conta; tampouco sou dado a afetações ou maneiras de gente bem educada quando se demonstra, não obstante a polidez com que se pode fazer isso, desafeição ou, pior, aversão a mim ou aos meus. Prefiro sempre o trato objetivo, de palavras claras, nas quais se vê a intenção sem disfarce para este ou aquele. É, também, nesses casos, meu proceder usar palavras desnudas, no limite da expressão do asco que este ou aquele tipo pode nos mostrar sem entrar de facto no enfrentamento puro e simples. Sempre prefiro a aspereza, o despudor e a dureza, tanto mais fáceis de serem alcançados quando menor é a significância daquele que se opõe. Sempre que assim se dá, tanto mais bem acabada, seca e objetiva é forma da altercação; tanto mais racionalmente orientada ela o é. Porém, quanto maior a significância daquele a quem se invectiva, tanto mais tortuosa será a oposição. Dela não se pode, quase nunca, se esperar uma forma sequer minimamente racional. Aquele que é significativo para quem quer que seja jamais está livre de ponderações irracionais, isto é, não está dissociado, nunca, de disposições ou estados mentais passionais; tais estados, seja numa disputa ou conciliação, jamais têm uma forma lógica, embora, é evidente, quanto menos aguerrido é o estado de ânimo, tanto mais se assume uma forma lógica à consecução do fim; e isto se dá, quase sempre na conciliação, pois a disputa, uma simples discussão com os entes que nos são caros e significativos, jamais têm uma forma predita; é uma torrente irracional que se acumula e se represa. De qualquer lado um dia o teu dique há de rebentar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

medo

Diz o pai dos burros que medo é um termo o qual significa, entre outras coisas, uma ansiedade irracional ou fundamentada; diz ele também que é um estado afetivo originado da consciência do perigo ou mesmo, contrariamente, oriundo desse estado da consciência. Se vê que ele pode ser, sim, fundamentado, mas quando é causado pela consciência, parece sempre ser um estado irracional ou no limar de sê-lo. Tal estado, indiferente às maneiras que se corporificam na consciência, pode surgir de modos inteiramente diversos, embora sua permanência na consciência, ao menos na aparência se dê pelas vias mencionadas.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Casado

—  Que aliança é essa?
— É que faz tempo que namoro a Doralice e me sinto como que casado — disse António, esboçando um sorriso tímido.
— Ah, então quer dizer que ela não está usando aliança, não é? — pergunta Fernando, com um ar inquisidor, sorrindo maleficamente.
— Não.
— Escute, António — procede Fernando, com um ar grave —, tens que estar casado para pôr uma aliança no dedo, depois daquela cerimónia, sabes? A tua pequena já viu essa coisa no teu dedo?
— Não — responde António, como quem se sente diminuído.
— És um paneleiro.