terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Literatura
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Alferes, tenente, capitão: Wedelmann
Kowalski: Como? Tem outra? Olhem-me para isto! Gostava de ser tão bem lançado como ele para o amor verdadeiro. Esse nunca faz nada pela metade, quer se trade de nazismo, de guerra ou de miúdas. Tudo ou nada. Para a eternidade ou então nem o dedo mínimo. O capitão e a sua última noiva de guerra.
08/15, A Derrota, p. 128
terça-feira, 28 de agosto de 2007
A guerra, I

Nessa mesma noite chegou à estação de correio da pequena cidade um telegrama urgente, concebido nos seguintes termos: "Subalterno Vierbein Stop Interromper imediatamente a licença Stop Pôr-se imediatamente em marcha Stop Witterer, capitão, chefe de bateria Stop.
O capitão Witterer, já muito tocado, estava sentado em frente do comandante da infantaria. O estômago deste parecia um buraco imenso que não se conseguia encher. Bebia, bebia e era como se não produzisse qualquer efeito.
— Durmo muito pouco — disse o comandante.
— Os soldados não precisam dormir muito — disse Witterer, que morria de fadiga. E Krause, sentado ao lado dele, acenou a cabeça a custo.
— Merda! — exclamou o comandante. — Se durmo pouco, é porque não posso dormir mais. Quem é que poderia dormir nesta porcaria em que estamos? Mas um destes dias vou-me abaixo — estarei maduro para o manicómio. Regozijo-me só de pensar nisso.
— Na noite em que isto vai recomeçar — disse Witterer, procurando sempre desembaraçar-se do seu convidado. — Nessa altura teremos necessidade de todas as nossas energias.
— Na noite que vem recuaremos em ordem, ao menos uma vez. Se o russo não nos perseguir, será um passeio.— Receia complicações, meu comandante? — perguntou Witterer, cuja atenção despertara subitamente. Krause, como a sombra de seu chefe, esticou a orelha.
— A guerra é feita só de complicações — disse o comandante, indiferente.
— Em todo o caso, os nossos chefes saberão...
— Merda! — disse o da infantaria, convicto, engolindo um copo cheio e aguardente. — Fazer a guerra sobre mapas é coisa completamente diferente de estar na lama. O sangue não é lápis encarnado. Aqui rebenta-se; lá apaga-se com a borracha. Um vomita na neve os pulmões estoirados; o outro vomita porque bebeu vinho tinto em demasia.
— E se o Russo nos perseguir realmente?
— Neste caso divertir-se-á outra vez a disparar tiros de canhão, meu amiguinho.
[Fragmento: Kirst, Hans Hellmut. 08/15, a guerra. Publicações Europa-América, Lisboa, pp. 302-3.]
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Mal dizer
"Eu sou um roceiro, um legítimo jagunço do interior de Minas: matuto, quadrado e bruto; desses que odeia gente com alegria de viver. Elas fedem.
Se você conversou comigo algumas vezes e só por isso acha que eu sou seu amigo: eu não sou. Se você nem conversou comigo e mesmo assim acha que eu sou seu amigo: eu não sou. Me deixe em paz. Não gosto de gente. Amigo demais sobra."
Aprecio muito dizeres rudes e ranzinzas. Isso sim é que é uma bela forma de prosa. Aguardem.
Pequenas notas espirais
- Dante Worlds da Universidade do Texas em Austin, uma coisa meio bizarra feita sobre o trabalho de Dante, é bonito e interessante, coisa bem feita.
- Projetc Gutenberg, livros eletrônicos gratuitos.
- Bibliomania, mais livros gratuitos, textos em Html, fáceis de serem carregados.
- Short Stories, bastante interessante. Variados gêneros, até alguns pra lá de esquisitos, como hiperficção, baseado em vários tipos de mídia e recursos gráficos. Espero que não chamem esse tipo de tralha de 'literatura'. Dá pra passar um bom tempo por lá.




sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Dentro da casa
O interior de sua casa era comum, ordinário sim, independentemente do que o Menino pensasse, sem bem que ele não perdia tempo, em seus pensamentos, com o lugar onde comia, dormia e, com certa frequência, ficava de castigo e apanhava. Isso acontecia não porque seus pais fossem maus para com ele, não. O Menino era travesso sim, teimoso sempre, apesar de se achar sempre injustiçado. Ademais ficava muito tempo fora de casa, no quintal, o que lhe dava mais possibilidades para suas brincadeiras — em broncas acabavam algumas. O interior era simples como dissemos, a cozinha tinha um piso de cerâmica, disposta da mesma forma simétrica que a cerâmica fosca do lado de fora, era branca, rajada de rosa ou vermelho muito claro, acabando por dar uma impressão de ser rosa. A porta da entrada, assim como as duas outras portas da casa, eram escuras, de madeira, pintadas à óleo, azul escuro na duas que se podia abrir e fechar, pintura bem gasta, soltando-se em muitas partes, mostrando cores anteriores, um azul claro pálido, rosa ou violeta desbotado, desagradável de se ver ou um marrom escuro, não menos desagradável que a cor da terceira porta, a da sala que nunca se abria. Decrépitas. Os móveis da cozinha eram todos azuis, azul claro, os da sala simples demais, sala do piso de taco marrom escuro como, descolando em muitas partes, com muitos tacos soltos, que quanto retirados exalavam cheiro ruim de madeira velha, sem cera, abrasivos pela falta de trato — tropeçar neles com os pés metidos em chinelos de dedo era frequente e doloroso. Na sala havia cortinas grandes e amplas — bonitas sim, escondiam a porta que nunca se abria e a janela —, uma tevê, colocada numa estante velha, poltronas gastas de napa marrom, com alguns rasgos, mas sem tecido para esconder a falta de meios, mas isso não por convicção moral ou algo do tipo, mas realmente por falta cuidado ou indiferença. No quarto duas camas, uma de casal, da mãe, uma de solteiro, um cesto abarrotado de coisas, guarda-roupas creme, novamente o piso de tacos, sem rodapé, tanto na sala como no quarto.
domingo, 19 de agosto de 2007
Sim
falseado pelo contraste
de cores berrantes
de variados tamanhos e formas
as cores
sua expressividade
seus tamanhos
os sentimentos desencadeados
sempre pensados
nunca impressos.
Escrita
Pois o texto jamais ganhará outra dimensão senão a da palavra escrita. Cores ou tamanhos o tornarão no máximo mais desagradável ou mais fácil de ser lido. Pelos que têm dificuldade em enxergar, as letras grandes serão mais facilmente lidas, por mais que se apresentem de forma deselegante. As letras coloridas, em fundo de baixo contraste, marcam apenas a obtusidade do autor: se quer um texto intrincado, que o faça pelo próprio texto e não lhe colocando obstáculos físicos. Se o autor não quer que sejam lidos, apenas não publique.
A internet está cheia de pseudo-autores dados a escrever subliteratura. Portam-se, ingenuamente, como se estivessem a fazer algo inteligente quando estão fazer experimentos literários tresloucados. Isto não porque sejam, sempre, estúpidos, mas sim porque não têm critérios que não os que se lhe apresentam sobejamente diante do nariz.
Os beletristas de outrora expandiam a mente com Virgílio, com a literatura clássica e a fina flor do que havia em sua época. No período hodierno expandem a mente com entorpecentes. E, por aí, se vê uma bela colecção de nulidades.
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Não
dos textos coloridos
das letras multiformes.
terça-feira, 10 de julho de 2007
ouvir
Barba rala e feia, por fazer.
Sem vaidade.
Esperando por
uma voz não que não ouviu.
De um rosto estático em vermelho
que se faz interessante
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Toada de Portalegre, José Régio
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
(Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem fôr,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante de uma janela
Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!
Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e Amarelos,
Salpicados de Oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego...
Ora agora,
Que havia o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento suão
De se lembrar de fazer?
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Que havia o vento suão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
O documento maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer?
Lá num craveiro, que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
Á qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...
Como é que o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere ... e consola
Com o próprio mal que faz?
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre; cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida
- Não vivida!, sim morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão,
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do tal suão
Já varias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...
Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e céus,
E o vento a trás à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tôsca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morar nela!
Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acàciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu; dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus,
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...
Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar nos animais,
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais,
Tais e tantas!,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for!
O amor, a amizade, e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara,
Bens deste mundo!, que o mundo
Me levara,
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixando só, nulo, vácuos,
A mim que tanto esperava
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver...
E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casa que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.
Vento suão!, obrigado...
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado
Sem eu sonhar, me chegara!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.
Cântigo Negro, José Régio
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
sexta-feira, 29 de junho de 2007
Estar
Ouço o rumor do ventilador,
o disco rígido roncando,
abafado.
A tela oscilando.
Todos os dias.
sem alma por perto
horas a fio
garrafa térmica
café, as mãos tremem
sem doçura.
Barulhos na rua, pessoas vivem
locomovem-se, trabalham, ruidosas.
Todos os dias.
Tão só.
Às vezes tomado de pânico
de vozes ausentes.
domingo, 11 de fevereiro de 2007
Doce lar
Seja com um bebê ou com o mais idoso
O que vale é a quantidade de decibéis
É de se pensar que todos gostam de exibir
Por gritos e berros, lancinantes e bárbaros,
Suas possantes vozes
Surdos há em toda parte
E aqui em profusão.
Aqueles que ouvem bem, logo ensurdecem
E como loucos passam a gritar.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2006
sábado, 7 de janeiro de 2006
Saudades
já nem lembro mais de ti.
Mas será que nunca deixo
de lembrar que te esqueci?"
— Mário Quintana
"não faz diferença
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia"
— Martha Medeiros
quinta-feira, 5 de janeiro de 2006
Grass
O moinho mói,
O Víslula corre,
E o Reno também,
O mar lambe a areia
A areia lambe o mar,
Os olhos inundam-se,
A tua vida segue.
quarta-feira, 14 de abril de 2004
Elogio da Maldade
Cena 1
Euclião — Estáfila
Euclião — Sai: estou mandando. Vamos, sai. Por Hércules, é preciso que vás para fora, espiã com esses teus olhos que esmiúçam tudo.
Estáfila — Mas porque bates em mim, uma pobre infeliz?
Euclião — Para que sejas mesmo infeliz, e para que, má, como és, leves uma vida infeliz, digna de tua maldade.
Estáfila — Mas porque motivo me puseste agora para fora de casa?
Euclião — Devo, acaso, dar-te as razões do que faço, armazém de pancadas? Bota-te bem para fora da porta. Para lá por favor. Vejam só como anda! É, mas sabes que é que te espera? Por Hércules, que se eu tiver na mão um pau ou aguilhão, eu mostro como alongar esse passo de tartaruga.
Estáfila — Antes que me levassem os deuses à forca que servir-te deste jeito.
Euclião — Como resmunga esta bandida! Por Hércules, que eu te vazarei esse olhos, sem vergonha, para que não possas andar espiando tudo o que eu faço. Afasta-te; mais; mais; mais... Basta! Para aí! Por Hércules, que, se saíres desse lugar por um dedo, uma unha, ou se olhares para trás, sem ordem minha, por Hércules, eu te mandarei, na mesma hora, crucificar, para aprenderes. O que sei é que nunca vi alguém mais patife que esta velha, e que tenho um medo horrível de que, quando eu menos esperar, ela, de traição, não me pregue uma peça, e não fareje onde está escondido o ouro. Ela tem um olho também na parte posterior da cabeça, a infame. Vou já ver se o ouro está como o deixei. Pobre de mim, ela me atormenta de todo jeito.
Estáfila — Por Cástor, não serei eu capaz de dizer que mal aconteceu ao meu senhor, não sou capaz de imaginar de que loucura está possuído. À coitada de mim, com estão vendo, põe-me, num dia, dez vezes fora de casa. Por Pólux, não sei que fúrias se apoderam desse homem. Leva as noites todas em claro; e os dias, passa-os todos em casa, com um sapateiro coxo. E não sei como ainda continuam a esconder-lhe a desonra da filha; sua hora se aproxima. Só me resta — eu acho — transformar-me num i maiúsculo, com um nó corredio no pescoço.
PLAUTO. Aulularia (A Comédia da Panelinha), Trad. Aída Costa. São Paulo, Difel, 1967, pp. 76-78.