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sexta-feira, 4 de março de 2011

Não é ódio

Ninguém falava sequer do ódio aos russos. O sentimento que experimentavam todos os tchetchenos era mais forte que o ódio. Não odiavam, simplesmente não reconheciam aqueles cães russos como gente. Era uma sensação de asco e estupefação ante a crueldade absurda daquelas criaturas, e o desejo de destruí-las, a exemplo de destruir os ratos, as aranhas venenosas e os lobos, era um sentimento natural como o instinto de conservação.
Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 156.

Aul destruído

Sado, em casa de quem Khadji-Murát se detivera, fora com a família para as montanhas, quando os russos se aproximaram do aul. Voltando, encontrou a sua sáklia destruída, o telhado derrubado, a porta e os postes da galeria queimados  e todo interior da casa coberto de imundície. O seu filho, aquele rapazinho bonito, de olhos coruscantes, que tinha olhado com deslumbramento para Khadji-Murát, fora trazido morto para a mesquita, sobre um cavalo coberto com uma japona. Tinha as costas atravessadas por uma baioneta. A mulher de ar venerável, quer servira a refeição a Khadji-Murát durante a sua visita, estava agora com a camisa rasgada no peito, deixando à mostra os seios decrépitos, pendentes, e, os cabelos soltos, mantinha-se curvada sobre o filho, dilacerando o rosto com as unhas e vociferando sem cessar. Sado apanhara a pá e a picareta e fora com os parentes cavar o túmulo do filho. O velho avô estava sentado contra a parede da sáklia destruída e, afinando uma vareta, olhava estupidamente diante de si. Acaba de voltar do seu comeal. Foram incendiada as duas medas de feno que lá havia, quebradas e queimadas as cerejeiras e os abricoteiros plantados pelo velho e, sobretudo, destruídas todas as colmeias. Ouvia-se o uivar das mulheres em todas as casas e na praça, aonde foram levados mais dois corpos. As crianças pequenas urravam, acompanhando as mães. Urrava também o gado faminto, que não recebia mais nada para comer. As crianças mais crescidas não brincavam, encarando os adultos com olhos assustados.
Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 154-5.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O czar Nicolai

A lisonja permanente, asquerosa e sem rebuços dos que o cercavam, reduzira-o a tal estado que não via mais as suas contradições e não fazia mais concordar os seus atos e palavras com a realidade, a lógica ou sequer com o comezinho bom senso, e estava plenamente convencido de que todas as suas disposições se tornavam inteligentes, justas e coerentes entre si, pelo simples fato de provirem dele.
Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 139-40.

Avdiéiev

Avdiéiev se virou mais uma vez, e o doutor passou muito tempo mexendo na sua barriga; finalmente, apalpou a bala, mas não conseguiu retirá-la. Passou sobre a ferida uma atadura, pregou-a com um emplastro pegajoso e saiu. Enquanto o doutor revolvia a ferida e pregava a atadura, Avdiéiev permaneceu deitado, os dentes apertados e os olhos fechados. Depois que o médico foi embora, abriu-os e olhou surpreendido em torno. Os seus olhos dirigiam-se para os demais internados e para o enfermeiro, mas parecia não os ver e estar fixando algo diferente, que o espantava.

Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 75-6.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Eu voltava para a casa, através dos campos. Estávamos precisamente no meado do verão. Fizera-se a limpeza dos pastos, e os camponeses preparavam-se para ceifar o centeio.
Nessa época do ano, há uma variedade maravilhosa de flores: trifólios felpudos e aromáticos, vermelhos, brancos, cor de rosa; margaridas insolentes, malmequeres brancos, jeitosos, de pólen amarelo vivo, com o seu fétido picante, de podridão; a colza amarela, recendendo a mel; campânulas brancas e roxas, altas, semelhando tulipas; ervilhas-de-cheiro; escabiosas ordeiras, flavas, vermelhas, rosas e lilases; a tanchagem de penugem rósea esmaecida e um perfume agradável, quase imperceptível; as centáureas de um azul intenso ao sol, quando desabrocham, e cerúleas, com tons avermelhados, ao anoitecer, quando se vão fanando; e as delicadas flores da cuscuta, que recendem a amêndoa e têm vida muito breve.
Liev Tolstói, Khadji-Murát. Tradução Boris Schnaiderman, Cosacnaify, p. 21.

Trifólio

Margarida

Malmequer

Colza

Campânula

Escabiosa

Flava (Feno-de-cheiro)

Centáurea

Cerúlea

Cuscuta

Ervilha de cheiro