Mostrando postagens com marcador prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prosa. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de dezembro de 2010

poesia e prosa

Não sou bom com poesia, nem com companhias. Saio-me melhor na prosa, embora tu me disseste recentemente que mesmo ela é empolada. Então me vejo num certo apuro, pois mesmo naquilo em que me tomava como aceitável, outrora mesmo bom, não é verdade — embora meu amor próprio, teimoso que é, esteja a dizer-me o contrário. O caso é que hoje queria algo e tentaria dizê-lo via poesia. Desisti. Talvez a poesia, que diz a coisa por si mesma como um acontecer que não se extingue, não seja mesmo o meu métier. A prosa ao contrário, diz um estado, situação, sensação, enfim, de um modo que é capaz mesmo de transcender o que é dito, pois nela é dada a possibilidade de dizer o detalhe e não apenas o estado bruto, uma imagem acabada, coesa, existente por si mesma. E do fragmento, um excerto qualquer perdido entre tantos períodos e orações, se pode captar algo que transcenda o texto, uma perspectiva ou interpretação que traga à baila aquilo que não foi devidamente feito claro ao entendimento, enfim, a prosa tem a capacidade de transcender-se. Talvez esteja a ser injusto com a poesia. Não sou bom com ela. E ela tem sido má comigo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Escrita medíocre

Essas mentes medíocres simplesmente não conseguem se decidir a escrever como pensam, pois acham que depois o resultado poderia adquirir uma aparência muito simplória. [...] Desse modo, apresentam o que têm a dizer com construções forçadas e difíceis, neologismos e períodos extensos, que circundam o pensamento e acabam por ocultá-lo. Oscilam entre o esforço para comunicá-lo e aquele para escondê-lo. Querem guarnecer o texto de modo que ele adquira uma aparência erudita ou profunda, para que as pessoas pensem que ele contém muito mais do que se consegue perceber no momento da leitura. Sendo assim, esboçam partes do seu pensamento em expressões curtas, ambíguas e paradoxais, que parecem significar muito mais do que dizem (exemplos excelentes desse gênero encontram-se nas obras de Schelling sobre a filosofia da natureza); logo voltam a apresentar seus pensamentos com uma torrente de palavras e uma verbosidade in-suportável, como se fossem necessárias sabe-se lã quais medidas para tornar compreensível seu sentido profundo, enquanto, na verdade, trata-se de uma idéia bastante simples, para não dizer até trivial (Fichte, em seus escritos populares, e centenas de imbecis miseráveis que não merecem ser nomeados, em seus manuais filosóficos, oferecem exemplos em abundância).
— Arthur Schopenhauer.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

A guerra, I

Tiger I

Nessa mesma noite chegou à estação de correio da pequena cidade um telegrama urgente, concebido nos seguintes termos: "Subalterno Vierbein Stop Interromper imediatamente a licença Stop Pôr-se imediatamente em marcha Stop Witterer, capitão, chefe de bateria Stop.

O capitão Witterer, já muito tocado, estava sentado em frente do comandante da infantaria. O estômago deste parecia um buraco imenso que não se conseguia encher. Bebia, bebia e era como se não produzisse qualquer efeito.

— Durmo muito pouco — disse o comandante.

— Os soldados não precisam dormir muito — disse Witterer, que morria de fadiga. E Krause, sentado ao lado dele, acenou a cabeça a custo.

— Merda! — exclamou o comandante. — Se durmo pouco, é porque não posso dormir mais. Quem é que poderia dormir nesta porcaria em que estamos? Mas um destes dias vou-me abaixo — estarei maduro para o manicómio. Regozijo-me só de pensar nisso.

— Na noite em que isto vai recomeçar — disse Witterer, procurando sempre desembaraçar-se do seu convidado. — Nessa altura teremos necessidade de todas as nossas energias.

— Na noite que vem recuaremos em ordem, ao menos uma vez. Se o russo não nos perseguir, será um passeio.

— Receia complicações, meu comandante? — perguntou Witterer, cuja atenção despertara subitamente. Krause, como a sombra de seu chefe, esticou a orelha.

— A guerra é feita só de complicações — disse o comandante, indiferente.

— Em todo o caso, os nossos chefes saberão...

— Merda! — disse o da infantaria, convicto, engolindo um copo cheio e aguardente. — Fazer a guerra sobre mapas é coisa completamente diferente de estar na lama. O sangue não é lápis encarnado. Aqui rebenta-se; lá apaga-se com a borracha. Um vomita na neve os pulmões estoirados; o outro vomita porque bebeu vinho tinto em demasia.

— E se o Russo nos perseguir realmente?

— Neste caso divertir-se-á outra vez a disparar tiros de canhão, meu amiguinho.

[Fragmento: Kirst, Hans Hellmut. 08/15, a guerra. Publicações Europa-América, Lisboa, pp. 302-3.]

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Mal dizer

Diz um velho amigo sobre si mesmo:
"Eu sou um roceiro, um legítimo jagunço do interior de Minas: matuto, quadrado e bruto; desses que odeia gente com alegria de viver. Elas fedem.

Se você conversou comigo algumas vezes e só por isso acha que eu sou seu amigo: eu não sou. Se você nem conversou comigo e mesmo assim acha que eu sou seu amigo: eu não sou. Me deixe em paz. Não gosto de gente. Amigo demais sobra."

Aprecio muito dizeres rudes e ranzinzas. Isso sim é que é uma bela forma de prosa. Aguardem.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Dentro da casa

SofáO interior de sua casa era comum, ordinário sim, independentemente do que o Menino pensasse, sem bem que ele não perdia tempo, em seus pensamentos, com o lugar onde comia, dormia e, com certa frequência, ficava de castigo e apanhava. Isso acontecia não porque seus pais fossem maus para com ele, não. O Menino era travesso sim, teimoso sempre, apesar de se achar sempre injustiçado. Ademais ficava muito tempo fora de casa, no quintal, o que lhe dava mais possibilidades para suas brincadeiras — em broncas acabavam algumas. O interior era simples como dissemos, a cozinha tinha um piso de cerâmica, disposta da mesma forma simétrica que a cerâmica fosca do lado de fora, era branca, rajada de rosa ou vermelho muito claro, acabando por dar uma impressão de ser rosa. A porta da entrada, assim como as duas outras portas da casa, eram escuras, de madeira, pintadas à óleo, azul escuro na duas que se podia abrir e fechar, pintura bem gasta, soltando-se em muitas partes, mostrando cores anteriores, um azul claro pálido, rosa ou violeta desbotado, desagradável de se ver ou um marrom escuro, não menos desagradável que a cor da terceira porta, a da sala que nunca se abria. Decrépitas. Os móveis da cozinha eram todos azuis, azul claro, os da sala simples demais, sala do piso de taco marrom escuro como, descolando em muitas partes, com muitos tacos soltos, que quanto retirados exalavam cheiro ruim de madeira velha, sem cera, abrasivos pela falta de trato — tropeçar neles com os pés metidos em chinelos de dedo era frequente e doloroso. Na sala havia cortinas grandes e amplas — bonitas sim, escondiam a porta que nunca se abria e a janela —, uma tevê, colocada numa estante velha, poltronas gastas de napa marrom, com alguns rasgos, mas sem tecido para esconder a falta de meios, mas isso não por convicção moral ou algo do tipo, mas realmente por falta cuidado ou indiferença. No quarto duas camas, uma de casal, da mãe, uma de solteiro, um cesto abarrotado de coisas, guarda-roupas creme, novamente o piso de tacos, sem rodapé, tanto na sala como no quarto.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Recordar-se a calar-se

Relembrar de tempos idos que foram bons e ser rechaçado. É como relembrar um afago maternal, dos tempos criança, e ser repreendido pela mãe. Amargo.