sábado, 18 de dezembro de 2010
poesia e prosa
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Evidente
escrito, falado ou declamado,
ao pé da letra.
Ou te enfado ou me esborracho.
sábado, 1 de agosto de 2009
Rasos
terça-feira, 25 de setembro de 2007
sorver
esse coração teu,
pouco comedido, precipitado
afeito apenas àquela
enxerga nela a margarida
fosse naquela flor, dantes amarela, vibrante
nas tuas madeixas, no teu olhar de menina
no refletir insinuante, te escapo aos braços
não chegas às notas altas,
às falas articuladas, ponderadas, cristalinas
mesmo a dizer não, tu percorre-me os ouvidos
no telefone, no curto recado do telemóvel
nas tuas imagens
nas tuas composições
dizes ainda que falta muito
para que vá onde queres
fica cá, ambivalente
a percorrer-me a memória
apenas um pouco de ti
teu calor, pudores
anseios teus
similares aos que construí
aqui, sem ajuda
para mim, apenas
sem nunca consultar a ti
a quem quer seja
vens, agora
não te vá, é tarde
esperançoso que queiras
dá me convites, vou
ora finjo esquecer
teimosamente.
mas estou cá,
com esses olhos de cão
seguindo, aproximando
rosnando e mordendo
o tempo todo
cenho franzido, rude, ressentido da tua falta
grosseiro de não chegar a ti
arrogante, farta-me de tanto saber
que desejo teu afagos
e minhas mãos, quentes de ti
das mechas até envolver-te
até tomar teu corpo, com força
a roubar teus lábios
sorvê-los.
domingo, 23 de setembro de 2007
Gabriela

Gabriela era dessas gajas barulhentas.
A reclamar a cada subida,
balouçando-se e rangendo por todos os recônditos
Hoje, carcomida pelo tempo
Pelas moçoilas mais novas
Amélias, Vitórias
Tomaram seu lugar
E elas mesmas andam já decrépitas
E ninguém sente saudades de ti,
Pois tu, Gabriela, foste sempre muito dura.
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Torso nu
neste sertão
das gentes esquecidas, ingénuas, simples
sertão isolado, provinciano, pequeno
sertão das letras mal encadeadas
dos maus poemas, das más palavras
de sonolências e outro tanto de privação
de tanto trabalho, de tanta dor
dia após outro dia.
domingo, 19 de agosto de 2007
Sim
falseado pelo contraste
de cores berrantes
de variados tamanhos e formas
as cores
sua expressividade
seus tamanhos
os sentimentos desencadeados
sempre pensados
nunca impressos.
Escrita
Pois o texto jamais ganhará outra dimensão senão a da palavra escrita. Cores ou tamanhos o tornarão no máximo mais desagradável ou mais fácil de ser lido. Pelos que têm dificuldade em enxergar, as letras grandes serão mais facilmente lidas, por mais que se apresentem de forma deselegante. As letras coloridas, em fundo de baixo contraste, marcam apenas a obtusidade do autor: se quer um texto intrincado, que o faça pelo próprio texto e não lhe colocando obstáculos físicos. Se o autor não quer que sejam lidos, apenas não publique.
A internet está cheia de pseudo-autores dados a escrever subliteratura. Portam-se, ingenuamente, como se estivessem a fazer algo inteligente quando estão fazer experimentos literários tresloucados. Isto não porque sejam, sempre, estúpidos, mas sim porque não têm critérios que não os que se lhe apresentam sobejamente diante do nariz.
Os beletristas de outrora expandiam a mente com Virgílio, com a literatura clássica e a fina flor do que havia em sua época. No período hodierno expandem a mente com entorpecentes. E, por aí, se vê uma bela colecção de nulidades.
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Não
dos textos coloridos
das letras multiformes.
terça-feira, 10 de julho de 2007
ouvir
Barba rala e feia, por fazer.
Sem vaidade.
Esperando por
uma voz não que não ouviu.
De um rosto estático em vermelho
que se faz interessante
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Toada de Portalegre, José Régio
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
(Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem fôr,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante de uma janela
Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!
Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e Amarelos,
Salpicados de Oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego...
Ora agora,
Que havia o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento suão
De se lembrar de fazer?
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Que havia o vento suão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
O documento maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer?
Lá num craveiro, que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
Á qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...
Como é que o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere ... e consola
Com o próprio mal que faz?
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre; cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida
- Não vivida!, sim morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão,
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do tal suão
Já varias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...
Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e céus,
E o vento a trás à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tôsca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morar nela!
Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acàciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu; dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus,
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...
Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar nos animais,
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais,
Tais e tantas!,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for!
O amor, a amizade, e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara,
Bens deste mundo!, que o mundo
Me levara,
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixando só, nulo, vácuos,
A mim que tanto esperava
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver...
E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casa que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.
Vento suão!, obrigado...
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado
Sem eu sonhar, me chegara!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.
Cântigo Negro, José Régio
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
sexta-feira, 29 de junho de 2007
Estar
Ouço o rumor do ventilador,
o disco rígido roncando,
abafado.
A tela oscilando.
Todos os dias.
sem alma por perto
horas a fio
garrafa térmica
café, as mãos tremem
sem doçura.
Barulhos na rua, pessoas vivem
locomovem-se, trabalham, ruidosas.
Todos os dias.
Tão só.
Às vezes tomado de pânico
de vozes ausentes.
domingo, 11 de fevereiro de 2007
Doce lar
Seja com um bebê ou com o mais idoso
O que vale é a quantidade de decibéis
É de se pensar que todos gostam de exibir
Por gritos e berros, lancinantes e bárbaros,
Suas possantes vozes
Surdos há em toda parte
E aqui em profusão.
Aqueles que ouvem bem, logo ensurdecem
E como loucos passam a gritar.
segunda-feira, 13 de março de 2006
Anda-te
Inexoralvemente
ora cálida, ora fria
ora chuvosa, mal humorada
ora luminosa e radiante
sempre e em espasmos lancinantes
teu rosto, teu cheiro me passam pela memória
como se tu estivesses aqui
mas ficas aqui, como um espectro
na minha poética ruim
quinta-feira, 19 de janeiro de 2006
sábado, 7 de janeiro de 2006
Saudades
já nem lembro mais de ti.
Mas será que nunca deixo
de lembrar que te esqueci?"
— Mário Quintana
"não faz diferença
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia"
— Martha Medeiros
quinta-feira, 5 de janeiro de 2006
Grass
O moinho mói,
O Víslula corre,
E o Reno também,
O mar lambe a areia
A areia lambe o mar,
Os olhos inundam-se,
A tua vida segue.
domingo, 11 de setembro de 2005
Macht
Com esses teus olhos rasos
enormes, claros, expressivos
com essas tuas marcas, sorrisos, quadrados
estes teus ossos, crassos,
tuas faces longas, estreitas.
Fazem-me sentir saudades e a repulsa de ti.
Pois de ti fizeste-me teu súdito: do teu amor — que sempre fora unicamente meu.
E do teu destempero, inimigo, refém dele.
Livro-me de ti, das tuas faces expressivas.
Amo a outra.
