Como fora que esses dois tinha chegado a casar-se, e como se dava um com o outro? A cidade lembrava-se daquela decisão brusca que com que procedera, havia dezoito anos, Thomas Buddenbrook, que então tinha trinta. "Esta ou nenhuma", dissera ele. Com Gerda, as coisas deviam ter sido parecidas: até a idade de vinte e sete anos, em Amsterdam, rejeitara todas as propostas, enquanto, imediatamente, aceitara este pretendente. Logo, um casamento de amor, era o que diziam. Embora de má vontade, tinham de admitir que os trezentos mil marcos de Gerda, nessa aliança, haviam apenas desempenhado papel secundário. Mas pelo outro lado percebera-se, desde o começo, muito pouco amor entre os dois, ou pelo menos aquilo que se entendia por amor. Desde o começo verificara-se nas suas relações apenas cortesia, uma cortesia absolutamente singular entre esposos, correta e respeitosa, a qual, coisa incompreensível, não se baseava em distância e estranheza interna, mas sim em recíproco conhecimento e intimidade, de caráter muito singular, mudo e profundo. Os anos nada haviam mudado.
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 564-5.
quinta-feira, 24 de março de 2011
"Thomas, de uma vez por todas: você nunca compreenderá nada de música como arte. Por mais inteligente que seja, jamais perceberá que ela representa mais do que uma distraçãozinha de sobremesa, um pequeno regalo dos ouvidos. Na música você carece de sentido para discernir o que é banal, senso que tem em outros assuntos... É justamente ele o critério da compreensão e assuntos de arte. Quão alheia a música lhe é pode concluir do fato de que seu gosto musical no fundo, absolutamente não corresponde às suas demais opiniões e necessidades. Que é que lhe agrada na música? Certo espírito de otimismo insípido; se você o encontrasse encerrado num livro, iria atirá-lo pela janela, indignando-se ou zombando dele. Realização pronta de qualquer desejo inspirado?... Satisfação imediata e amável da vontade mal instigada... Será que as coisas se passam no mundo como numa melodia bonita? Este idealismo não deixa de ser tolo."
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 449.
James Möllendorpf, decano dos senadores comerciários, morreu de modo grotesco e horripilante. Esse ancião diabético em tal grau perdeu o instinto de conservação que nos últimos anos de vida sucumbira cada vez mais a uma paixão por bolos e tortas. O Dr. Grabow, médico também dos Möllendorpf, protestara com toda energia de que era capaz e a família, preocupada, com branda autoridade, privara seu chefe dos doces e artigos de padaria. Mas o velho senador, mentalmente débil como era, alugara um quarto em qualquer parte de uma rua pouco conveniente, na pequena Gröpelgrube, atrás do Bastião ou no Engelswisch; e para ali, para esse cubículo que não passava de um verdadeiro buraco, arrastava-se às furtadelas, a fim de comer torta... Lá é que haviam encontrado o corpo exânime, a boca ainda cheia de bolo meio mastigado, cujos restos lhe sujavam o casaco e cobriam a mesa pobre. Uma apoplexia mortal precedera a consumação progressiva.
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 359.
Por vezes, quando a consulesa sofria de enxaqueca, cabia à Sra. Grünlich administrar a casa e fixar o cardápio. Um dia, em que um pregador forasteiro, cujo apetite causava alegria geral, se hospedara na casa. Tony, perfidamente, mandou fazer sopa de toucinho, prato especial da cidade: um caldo preparado com ervas avinagradas, e no qual boiava todo o cardápio do dia — presunto, batatas, ameixas azedas, passas de pêra, couve-flor, ervilhas, vagens, nabos e outras coisas —, tudo adubado com molho de frutas. Quem não estivesse, desde criança, acostumado a essa comida, seria incapaz de tragá-la.
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 216.
A pequena Klara, criança loiro-escura de olhos bastante austeros, estava sentada na mesinha de costura, junto à janela, com um bordado nas mãos. Klothilde, entregue ao mesmo trabalho, encontrava-se no sofá, ao lado da consulesa. Não era muito mais velha do que sua prima casada, tinha apenas vinte e um anos. Mas o rosto comprido já começava a mostrar linhas acentuadas, e o cabelo liso e dividido ao meio — cabelo que nunca fora loiro, mas sempre de um cinza embaciado — contribuía muito para completar o retrato de uma solteirona. Estava satisfeita com essa evolução, nada fazendo para remediá-la. Talvez tivesse necessidade de envelhecer rapidamente para fugir logo de qualquer dúvida ou esperança. Não possuindo nenhum vintém, sabia que não haveria ninguém no mundo para casar-se com ela, e encarava humildemente seu futuro num pequeno quarto, vivendo da pequena mesada que o tio poderoso lhe conseguiria duma instituição de auxílios a moças pobres e de boa família.
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 160.
— Mas é que, justamente, não quero esquecer! — gritou Tony completamente desesperada. — Esquecer... será que esquecer consola?
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 140.
O velho talvez estivesse recordando como, havia quarenta e seis anos, sentara-se junto ao leito de morte da primeira esposa. Talvez comparasse o desespero que naquela ocasião se apossara dele à melancolia pensativa com que observava agora, envelhecido, o rosto transformado, inexpressivo e horrivelmente indiferente da velha senhora, dessa mulher que nunca lhe proporcionara grande felicidade, nem grande dor, mas que vivera ao seu lado durante muitos, longos anos com tato e prudência e que, naquele momento, se ia embora, vagarosamente.
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 62-3.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Um homem bom e modelar,
Um sujeito complacente:
Faz sopa, cuida do bebê
E tem cheiro de aguardente...
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 45.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Alferes, tenente, capitão: Wedelmann
Kowalski: Como? Tem outra? Olhem-me para isto! Gostava de ser tão bem lançado como ele para o amor verdadeiro. Esse nunca faz nada pela metade, quer se trade de nazismo, de guerra ou de miúdas. Tudo ou nada. Para a eternidade ou então nem o dedo mínimo. O capitão e a sua última noiva de guerra.
08/15, A Derrota, p. 128
domingo, 23 de setembro de 2007
Bildungsroman
Excertos do Jovem Törless de Robert Musil.
"...
— Sim, uns trechos novos de trigonometria, mas você vai acertar tudo, não há novidade.
— O que mais?
— Religião.
— Religião? Ah, é. Vamos ver... Acho que, quando estou animado, posso provar tão bem que dois mais dois são cinco quanto que só pode existir um Deus..." p. 28
"...
Törless entregou-se inteiramente à fluência deles, pois sua condição espiritual era mais ou menos a seguinte: em sua idade lia-se no ginásio Goethe, Schiller, Shakespeare, talvez até os modernos. Coisas que, semidigeridas, mais tarde são exteriorizadas por escrito, e surgem tragédias romanas ou poemas sentimentais, páginas inteiras de pontuação semelhante a uma renda delicada: coisas em si tolas, conquanto inestimáveis para que se tenha um desenvolvimento seguro. Pois essas associações, vindas de fora, essas emoções tomadas de empréstimo, ajudam os jovens a caminhar sobre um solo espiritual excessivamente macio desses anos, nos quais eles têm necessidade de descobrir o sentido de si próprios, ainda que imaturos demais para fazerem qualquer sentido. Não importa que alguns guardem vestígios disso e outros não; mais tarde todos aprenderão a conviver consigo próprios. O perigo reside apenas na idade de transição. Se nessa fase pudéssemos fazer o adolescente ver o quanto é ridículo, o chão abriria sob seus pés e ele despencaria como um sonâmbulo que, subitamente despertado, não vê senão um vácuo à sua frente." p. 14-15
"...
Mas já no dia seguinte teve uma grande decepção. Pela manhã, comprara o volume de Kant que vira na mesa do professor, e no primeiro intervalo pôs-se a ler. Mas com tantos parênteses e notas de rodapé, não entendia nada; e quando seguia escrupulosamente as linhas com os olhos, era como se uma velha mão descarnada fizesse seu cérebro girar em espirais, arrancando-o de dentro do crânio.
Quando, meia hora depois, parou exausto, havia gotas de suor em sua testa — e chegara apenas à segunda pagina.
Apertou os dentes e leu mais uma página até o intervalo acabar.
À noite, já não desejava nem tocar no livro. Medo? Repulsa? Não sabia. Só uma coisa o atormentava, nítida: era que o professor, pessoa de aparência tão apagada, tivesse aquele livro bem exposto no quarto, como se ele fosse uma diversão cotidiana." p. 108
Extraídos de O Jovem Törless. MUSIL, Robert. Ed. Nova Fronteira. Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro, 1981.
Sobre o escritor:
pt.wikipedia.org & en.wikipedia.org
terça-feira, 28 de agosto de 2007
A guerra, I

Nessa mesma noite chegou à estação de correio da pequena cidade um telegrama urgente, concebido nos seguintes termos: "Subalterno Vierbein Stop Interromper imediatamente a licença Stop Pôr-se imediatamente em marcha Stop Witterer, capitão, chefe de bateria Stop.
O capitão Witterer, já muito tocado, estava sentado em frente do comandante da infantaria. O estômago deste parecia um buraco imenso que não se conseguia encher. Bebia, bebia e era como se não produzisse qualquer efeito.
— Durmo muito pouco — disse o comandante.
— Os soldados não precisam dormir muito — disse Witterer, que morria de fadiga. E Krause, sentado ao lado dele, acenou a cabeça a custo.
— Merda! — exclamou o comandante. — Se durmo pouco, é porque não posso dormir mais. Quem é que poderia dormir nesta porcaria em que estamos? Mas um destes dias vou-me abaixo — estarei maduro para o manicómio. Regozijo-me só de pensar nisso.
— Na noite em que isto vai recomeçar — disse Witterer, procurando sempre desembaraçar-se do seu convidado. — Nessa altura teremos necessidade de todas as nossas energias.
— Na noite que vem recuaremos em ordem, ao menos uma vez. Se o russo não nos perseguir, será um passeio.— Receia complicações, meu comandante? — perguntou Witterer, cuja atenção despertara subitamente. Krause, como a sombra de seu chefe, esticou a orelha.
— A guerra é feita só de complicações — disse o comandante, indiferente.
— Em todo o caso, os nossos chefes saberão...
— Merda! — disse o da infantaria, convicto, engolindo um copo cheio e aguardente. — Fazer a guerra sobre mapas é coisa completamente diferente de estar na lama. O sangue não é lápis encarnado. Aqui rebenta-se; lá apaga-se com a borracha. Um vomita na neve os pulmões estoirados; o outro vomita porque bebeu vinho tinto em demasia.
— E se o Russo nos perseguir realmente?
— Neste caso divertir-se-á outra vez a disparar tiros de canhão, meu amiguinho.
[Fragmento: Kirst, Hans Hellmut. 08/15, a guerra. Publicações Europa-América, Lisboa, pp. 302-3.]
quinta-feira, 5 de janeiro de 2006
Grass
O moinho mói,
O Víslula corre,
E o Reno também,
O mar lambe a areia
A areia lambe o mar,
Os olhos inundam-se,
A tua vida segue.
