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quinta-feira, 24 de março de 2011

Como fora que esses dois tinha chegado a casar-se, e como se dava um com o outro? A cidade lembrava-se daquela decisão brusca que com que procedera, havia dezoito anos, Thomas Buddenbrook, que então tinha trinta. "Esta ou nenhuma", dissera ele. Com Gerda, as coisas deviam ter sido parecidas: até a idade de vinte e sete anos, em Amsterdam, rejeitara todas as propostas, enquanto, imediatamente, aceitara este pretendente. Logo, um casamento de amor, era o que diziam. Embora de má vontade, tinham de admitir que os trezentos mil marcos de Gerda, nessa aliança, haviam apenas desempenhado papel secundário. Mas pelo outro lado percebera-se, desde o começo, muito pouco amor entre os dois, ou pelo menos aquilo que se entendia por amor. Desde o começo verificara-se nas suas relações apenas cortesia, uma cortesia absolutamente singular entre esposos, correta e respeitosa, a qual, coisa incompreensível, não se baseava em distância e estranheza interna, mas sim em recíproco conhecimento e intimidade, de caráter muito singular, mudo e profundo. Os anos nada haviam mudado.

Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 564-5.
"Thomas, de uma vez por todas: você nunca compreenderá nada de música como arte. Por mais inteligente que seja, jamais perceberá que ela representa mais do que uma distraçãozinha de sobremesa, um pequeno regalo dos ouvidos. Na música você carece de sentido para discernir o que é banal, senso que tem em outros assuntos... É justamente ele o critério da compreensão e assuntos de arte. Quão alheia a música lhe é pode concluir do fato de que seu gosto musical no fundo, absolutamente não corresponde às suas demais opiniões e necessidades. Que é que lhe agrada na música? Certo espírito de otimismo insípido; se você o encontrasse encerrado num livro, iria atirá-lo pela janela, indignando-se ou zombando dele. Realização pronta de qualquer desejo inspirado?... Satisfação imediata e amável da vontade mal instigada... Será que as coisas se passam no mundo como numa melodia bonita? Este idealismo não deixa de ser tolo."

Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 449.
James Möllendorpf, decano dos senadores comerciários, morreu de modo grotesco e horripilante. Esse ancião diabético em tal grau perdeu o instinto de conservação que nos últimos anos de vida sucumbira cada vez mais a uma paixão por bolos e tortas. O Dr. Grabow, médico também dos Möllendorpf, protestara com toda energia de que era capaz e a família, preocupada, com branda autoridade, privara seu chefe dos doces e artigos de padaria. Mas o velho senador, mentalmente débil como era, alugara um quarto em qualquer parte de uma rua pouco conveniente, na pequena Gröpelgrube, atrás do Bastião ou no Engelswisch; e para ali, para esse cubículo que não passava de um verdadeiro buraco, arrastava-se às furtadelas, a fim de comer torta... Lá é que haviam encontrado o corpo exânime, a boca ainda cheia de bolo meio mastigado, cujos restos lhe sujavam o casaco e cobriam a mesa pobre. Uma apoplexia mortal precedera a consumação progressiva.
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 359.
Por vezes, quando a consulesa sofria de enxaqueca, cabia à Sra. Grünlich administrar a casa e fixar o cardápio. Um dia, em que um pregador forasteiro, cujo apetite causava alegria geral, se hospedara na casa. Tony, perfidamente, mandou fazer sopa de toucinho, prato especial da cidade: um caldo preparado com ervas avinagradas, e no qual boiava todo o cardápio do dia — presunto, batatas, ameixas azedas, passas de pêra, couve-flor, ervilhas, vagens, nabos e outras coisas —, tudo adubado com molho de frutas. Quem não estivesse, desde criança, acostumado a essa comida, seria incapaz de tragá-la.
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 216.
A pequena Klara, criança loiro-escura de olhos bastante austeros, estava sentada na mesinha de costura, junto à janela, com um bordado nas mãos. Klothilde, entregue ao mesmo trabalho, encontrava-se no sofá, ao lado da consulesa. Não era muito mais velha do que sua prima casada, tinha apenas vinte e um anos. Mas o rosto comprido já começava a mostrar linhas acentuadas, e o cabelo liso e dividido ao meio — cabelo que nunca fora loiro, mas sempre de um cinza embaciado — contribuía muito para completar o retrato de uma solteirona. Estava satisfeita com essa evolução, nada fazendo para remediá-la. Talvez tivesse necessidade de envelhecer rapidamente para fugir logo de qualquer dúvida ou esperança. Não possuindo nenhum vintém, sabia que não haveria ninguém no mundo para casar-se com ela, e encarava humildemente seu futuro num pequeno quarto, vivendo da pequena mesada que o tio poderoso lhe conseguiria duma instituição de auxílios a moças pobres e de boa família.
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 160.
— Mas é que, justamente, não quero esquecer! — gritou Tony completamente desesperada. — Esquecer... será que esquecer consola?
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 140.
O velho talvez estivesse recordando como, havia quarenta e seis anos, sentara-se junto ao leito de morte da primeira esposa. Talvez comparasse o desespero que naquela ocasião se apossara dele à melancolia pensativa com que observava agora, envelhecido, o rosto transformado, inexpressivo e horrivelmente indiferente da velha senhora, dessa mulher que nunca lhe proporcionara grande felicidade, nem grande dor, mas que vivera ao seu lado durante muitos, longos anos com tato e prudência e que, naquele momento, se ia embora, vagarosamente.
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 62-3.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Um homem bom e modelar,
Um sujeito complacente:
Faz sopa, cuida do bebê
E tem cheiro de aguardente...
Thomas Mann, Os Buddenbrook. Trad. Herbert Caro, Círculo do Livro, São Paulo, 1981, p. 45.