domingo, 28 de fevereiro de 2016

O rebordo é este:

Os textos aqui presentes são fictícios. Qualquer relação com pessoas, agentes, instituições reais será apenas coincidência. Nenhum texto aqui pretende minorar a honra de pessoas, agremiações ou partidos mesmo quando se tratar de alguma soporífera sátira. Os textos não refletem a realidade, não são juízos válidos ou práticos sobre realidade, assim não podem conduzir a qualquer tipo de atividade pragmática efetiva.

Caso você precise travar, AINDA, contato com o autor que ora escreve, desista. Vossas palavras, por mais belas que sejam, não irão demovê-lo.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Estupor

Clave de Fá
Tiveste alento num dia, mas noutro, essa toada infame, o tempo quente, sufocante, que te põe em torpor. Vês e lá está; ela se apresenta sempre a ti, meu tolinho, cativante por ser ela mesma o que é, não precisa do menor esforço. Tu ficas lá, vidrado, boçal, com um ar imbecilizado, sem saber o que dizer, como se portar. Em alguns dias tens lá sorte. Consegues articular umas poucas frases aceitáveis, impressionando toda a gente com a tua superação. Mas tua indignidade, tua falta de modos, tua completa incompetência em socializar-te por aí, te levam, felizmente, à posição que mereces. Quem dera tu fosses um misantropo, ao menos te faria um ente merecedor da indiferença alheia; mas não, mereces escárnio e mesmo isso te seria pouco. Não és sequer digno dos olhares que as pessoas te lançam ao acaso.

Talvez tu penses que sou mal. Ora, nem que eu fosse, ainda que tu sejas merecedor de muitas maldades. Desejo até que melhores. Se bem que na idade em que estás, ainda que fisicamente jovem, tua teimosia é digna dos anciões. Teu primeiro quarto de século findou sem verdejar, dele nada brotou, fez-se já podre. Daqui em diante, tu não melhoras, não podes mais te reeducar. Talvez, como a um cão, possam te adestrar.

Ainda que digam que tu sejas semelhante à alguma poeirenta personagem de livros mofados, lembre-te que tua nulidade te sobrepuja inteiramente. Assim te digo: - os olhos amendoados, aquela voz delicada, em cujo timbre encontras a tua solene redenção, jamais será tua, jamais te será sussurrada nos ouvidos. Mesmo que teus anseios tenham lá algo em comum, porque ainda ficas a pensar nisso? Não te fartas com tanta tolice?

Lembre-te do teu lugar poeirento, de palavras e jargões que ninguém falam, com teu método pretensioso, com tuas fundamentações que, quiçá úteis, são sempre recebidas com indiferença ou, dada a antipatia que brota de ti, repulsa. Não notaste ainda? Meu velho Ziemssen, nem tuas missivas de amor merecem qualquer atenção.

terça-feira, 26 de julho de 2011

181.

Querida,

gostava quando líamos artigos literários um para o outro; algo que nos era tão comum é na verdade algo não só raro, mas aparentemente impossível. Por falar nisso, quero te ler, à viva voz, um conto do Tchekhov: Kachtanka. Eu sei que adorarias.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

176.

Querida Cecília,

hoje o tempo virou, a tarde está cinza, num tom escuro, quase grafite, embora os dias estejam já um pouco mais longos do que no início do inverno. O dia está úmido, de raro em raro chuvisca; por aqui andam a podar as árvores e o barulho da motosserra se faz onipresente, há caminhões lotados de galhos, ramos e troncos partidos. Gosto desses dias acinzentados e frios, mas odeio quando eles se vão, porque no inferno pouco chove, pouco venta, os dias ficam mornos, às vezes quentes, sem nuvens; dias ensolarados que se estendem, no inverno, por semanas; o céu de azul passa a uma tonalidade acinzentada; a cidade passa a ter um horizonte acastanhado, o ar é seco, os olhos ardem, a respiração é dificultosa. Tudo isso é tão diferente do que é a cidade em abril, o céu, não sei porque, tem um azul intenso, mais escurecido, o clima é morno, as chuvas ainda são comuns, águas de março teimosas no abril - egoísta eu fui, não relatei a ti o quanto o mês de abril foi agradável; somente agora, no inverno, te relato as impressões de outono; não foi por mesquinharia, andava a ser cansativamente piegas. Abril tem esse azul no céu, as tardes são luminosas, os dias têm a duração equilibrada; a cidade, nos últimos tempos, apesar de ainda julgá-la inabitável, anda melhor. O centro tem permanecido limpo; aquelas fachadas e letreiros de propaganda multicoloridos não existem mais, mas parece que as fachadas, todas elas, finalmente foram recompostas, o comércio ambulante que apinhava as ruas tornando-as intransitáveis foi, ao que parece, regulamentado, são poucas as barracas, não há mais corre-corre quando a polícia é avistada; andar, agora, é apetecedor, embora mazelas persistam em certos lugares de notória má fama.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

161.

Cecília,

você deve ter notado hoje como o humor, mesmo quando dum ente tão próximo, pode ser cruel. Ele pode provocar o riso alheio num escárnio sangrento, sintetizado meramente numa imagem abjeta, asquerosa. Ainda me apego a Hobbes.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

154.

Querida,

não tenho tido respostas. Uma chamada ao telefone é forjada a pretextar o fim da fala. As missivas, curtas, não são, agora, respondidas. Às vezes, doçura, tenho tanta dificuldade em entender tais coisas. Me escapam. Da aversão à mudança, luto, agora, contra o status quo, incapaz de aceitar o que me cerca tal como é,   exatamente como antes, a persistir numa recalcitrância tola, infantil. Entretanto, tenho a tua doçura aqui, toda ela vivaz: traz essa alegria de criança, ingênua, real.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

102.

Cecília, querida,

fico a me lembrar de ti pelas manhãs em cores melancólicas e sentimentais, num tom açucarado, piegas. Sinto falta da proximidade de outrora, embora, ainda hoje, tuas respostas sejam rápidas e atenciosas; tu, agora, vives a dizer: não dá mais.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

83.

Querida,

trago o cansaço para casa. E, ao chegar, me deparo com uma torneira quebrada. A rosca espanou, não houve jeito, após duas horas a tentar resolver o problema, isto é, substituir a torneira quebrada por uma nova. Além de cansaço, tenho agora irritação, frustração, pois além de tudo, será a primeira páscoa ao cabo de alguns anos que passo longe de ti; sobra-me uma raiva tenaz, recalcitrante.

terça-feira, 19 de abril de 2011

82.

Perdoe os saltos,

não poder escrever pra ti foi péssimo; todos anos, exatamente na época que precede a Semana Santa, as tarefas se avolumam; fiquei consumido por elas e não pude te dar uma mísera linha. Peço desculpa. Espero que isso não volte acontecer. O dia já vai a terminar, devo ir pra cama, já.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

69.

Já te mencionei, querida,

a ciclovia que tem naquela avenida que sempre tenho de cruzar. Construída no meio do canteiro central pobremente arborizado, com rochas irregulares e feias em sua extensão; compõe a paisagem os respiros das galerias duplas do córrego subterrâneo, os quais exalam o fedor persistente da água podre que nele circula. Os respiros têm os muros brancos, de pouco mais de um metro e meio de altura, às vezes menos, uns retangulares, outros quadrados, os quais tem dois níveis, um mais raso que é feito de cama para os que moram na rua, entre baratas, odores fétidos e ratazanas, com andrajos jogados desordenadamente, feito cama numa toca à céu aberto, e, por fim, um degrau que acessa o nível mais baixo onde se vê a água cinza esverdeada do córrego; os mais estreitos dão direto para o leito, impossíveis de serem ocupados como moradia improvisada. Há, porém, um outro tipo de respiro: de muros baixos e uma rampa para acessar o fundo do córrego, abaixo cinco metros, talvez, do nível do passeio; embora haja rampa, não se vê portões ou algo que o valha, apenas paredes de concreto ao fundo, não imagino a finalidade desse tipo de construção.

terça-feira, 5 de abril de 2011

68.

Cecília,

ao oscilar de um ponto ao outro com a mesma regularidade do pêndulo do relógio, uma certeza se pode ter: não se trata de bipolaridade. É simples desespero.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

67.

Querida,

já usei deste expediente na falta de uma palavra digna de nota, perdoe:

"Hoje o dia foi triste, chuvoso, sem luz, exatamente como minha velhice futura. Fui oprimido por pensamentos tão estranhos e sensações tão sombrias, questões ainda tão obscuras acumulavam-se em minha cabeça, e era como se eu não tivesse forças nem vontade de resolvê-las."
Fiódor Dostoiévski, Noites Brancas. Trad. Nivaldo Monteiro. Ed. 34, São Paulo, 2007, p. 57.

domingo, 3 de abril de 2011

66.

 Querida Cecília,

lembrei-me de ti, com ternura e encabulamento na falta de uma palavra benquista, cesso, desisto em favor da prosa russa.
"Tenho uma velha avó. Fui para sua casa quando era ainda uma menina muito pequena, porque minha mãe e meu pai tinham morrido. É de pensar que antes minha avó era rica, porque hoje se recorda de dias melhores. Ela me ensinou francês e depois contratou-me um professor. Quando eu tinha quinze anos (agora eu tenho dezessete) parei de estudar. Foi nessa época que fiz uma travessura; o que eu fiz não vou lhe dizer, basta saber que o delito era pequeno. Uma manhã a avó me chamou e disse que, como era cega, não podia me vigiar; então pegou um alfinete e prendeu meu vestido ao dela, dizendo que ficaríamos assim a vida toda se, entenda-se, eu não me comportasse melhor. Numa palavra, nos primeiros tempos não havia como me afastar: era trabalhar, ler, estudar, tudo ao lado da avó. Uma vez tentei usar de astúcia e convenci Fiokla a ficar no meu lugar. Fiokla é nossa criada; ela é surda. Fiokla tomou o meu lugar numa hora em que a avó adormeceu, eu fui à casa de uma amiga ali perto. Mas a coisa acabou mal. A avó despertou e perguntou algo, pensando que eu estava calmamente sentada no lugar. Fiokla viu que a avó estava perguntando, mas não entendia o quê; ficou pensando e pensando no que fazer e então soltou o alfinete e deitou a correr..."

Fiódor Dostoiévski, Noites brancas. Trad. Nivaldo Monteiro. Ed. 34, São Paulo, 2007, p. 45-6.
Soa-me maviosamente.

sábado, 2 de abril de 2011

63, 64, 65.

Ontem, anteontem e mesmo hoje, querida,

foram dias tristes encolhido num canto escuro, oculto, amesquinhado em anseios e desejos. Sem alento, indiferente, a fitar a treva com os olhos lassos, embotados; escuto o barulho da chuva que cai, as pessoas que vão, falam, vivem; aterrado.
O juiz sorriu, dançou uma quadrilha, fez a corte e pensou consigo mesmo: não será um sonho, tudo isso? O cômodo sujo na isbá do conselho local, o feno amontoado no canto, o rumor das baratas, a mobília miserável e abjeta, as vozes das testemunhas, o vento, a nevasca, o risco de se desviar da estrada, e de repente aquelas acomodações magníficas  muito claras, o som do piano, moças bonitas, crianças de cabelos cacheados, sorrisos alegres, felizes — tamanha transformação lhe pareceu digna de um conto de fadas; e era inacreditável que uma transformação tão grande fosse possível a uma distância de apenas três verstas e a uma hora de viagem. Mas pensamentos tristes impediam que Lijin se alegrasse e ele não parava de pensar que aquilo à sua volta não era vida, mas lascas de vida, migalhas, que tudo aquilo era fortuito, não se podia tirar nenhuma conclusão definitiva; e ele até sentia pena daquelas mocinhas que vivem ali e terminam suas vidas naquele fim de mundo, na província, longe dos ambientes cultos, onde nada é fortuito, tudo é consciente, legítimo, e onde, por exemplo, todo suicídio tem uma razão de ser e pode ser explicado, porque tudo o que acontece tem um significado, no turbilhão geral da vida. 
Anton Tchekhov, O assassinato e outras histórias. Trad. Rubens Figueiredo, Cosac Naify, São Paulo, 2002, p. 176  — Em serviço.
— No tempo da servidão era melhor — disse o velho, enquanto enrolava seda. — O sujeito trabalhava, comia dormia, tudo na sua hora. No almoço tinha sopa de repolho e mingau, de noite também davam sopa de repolho e mingau. Pepino e couve, isso tinha à vontade: a gente comia livremente, o quanto a alma quisesse. E havia muita severidade. Todo mundo andava na linha.
Anton Tchekhov, O assassinato e outras histórias. Trad. Rubens Figueiredo, Cosac Naify, São Paulo, 2002, p. 116  — Os mujiques.
Mária contou que nunca estivera  em Moscou e nem mesmo na sede do seu distrito natal; era analfabeta, não sabia dizer nenhum prece, nem sequer o "Pai nosso". Ela e a outra nora, Fiokla, que agora estava sentada a certa distância e as escutava eram extremamente ignorantes  não conseguiam entender coisa alguma. Não gostavam de seus maridos; Mária tinha medo de Kiriak, chegava a tremer de pavor quando estava com ele e, perto do marido, sempre se sentia desnorteada, tão forte era o cheiro de vodca e tabaco que ele exalava.
Anton Tchekhov, O assassinato e outras histórias. Trad. Rubens Figueiredo, Cosac Naify, São Paulo, 2002, p. 96-7  — Os mujiques.
Em honra às visitas, prepararam o samovar. O chá tinha cheiro de peixe, o açúcar estava roído e cinzento, sobre o pão e a louça circulavam baratas; beber aquilo era repugnante e a conversa também era repugnante — só falavam de miséria e de doença.
Anton Tchekhov, O assassinato e outras histórias. Trad. Rubens Figueiredo, Cosac Naify, São Paulo, 2002, p. 94  — Os mujiques.

quarta-feira, 30 de março de 2011

62.

Ando muito cansado, querida,

o sono tem me escapado nos últimos três ou quatro dias, o trabalho tem feito a existência mesquinha, o topor físico daí resultante me atrapalha ao ler, fico sonolento, cochilo, acordo num sobressalto, fico nisso por oras a fio, sem conseguir descansar direito, tampouco ler. Daí escrever algo que preste...

61.

(ontem)

Cecília,

há, por aqui, uma criança de uns cinco anos, de cabelos claros, compridos e ralos, dando sempre pra ver entre os fios, pálida e amarelecida, a criança chega a ter a tez acinzentada, sendo mais escura ao redor dos olhos, embora não se trate de olheiras, tem o pescoço fino e gretado, como o de um velho, assim como os dentes que a criança não tem; usa uma dentadura de aspecto ruim. Quase não fala, quando o faz, a voz é fraca, rouca com uma expressão vítrea nos olhos. Gosta de brincar como toda criança, embora o corpo imprestável lhe impeça essa felicidade ingênua, como será, também, obstáculo ao que de ora em diante vier.

terça-feira, 29 de março de 2011

60.

(ontem)

Querida,

às vezes os sonhos são estranhos, ora doces, ternos, permeados de reminiscências sentimentais; ora se conformam como pesadelos sempre aflitivos; tenho estranhado a persistência de quadros, acontecimentos irreais, não obstante imensamente desejados, que me sobrevém já há algumas semanas. Têm a tessitura do real e mesmo seus efeitos no sono e no exato momento do despertar; nesses sonhos tenho estado perto de ti,  a ler, falar, comer, andar, beber, mesmo a nos preparar para dormir, e isto tem me trazido a realização de tua presença aqui ao meu lado imediatamente esvanecida no momento em que, desperto, contemplo a ampla cama vazia de ti. Fico sentado na cama a fitar o teu canto na nela com os olhos cheios de enlevo, a recordar a doçura que se vai, que se perde, terminada ao cabo do sonho, do sono, do descanso, do fim da noite e início do dia, de mais uma jornada com a consciência recobrada, a me dizer: não estás mais aqui.

domingo, 27 de março de 2011

59.

Não sei como consegues, querida,

mas eu definitivamente me irrito deveras com a TV. Não consigo esboçar um sorriso com programas que supostamente deveriam fazer toda a gente rir. Sempre te disse que não percebo comicidade com o simples fato de ver uma pessoa a cair; e fico incomodado porque se o tipo fenece diante leis de Newton, isto normalmente é acompanhado de dor, assim penso cá com meus botões: tem que ser um tipo assaz escroto para se comprazer na dor alheia. Isto está bem além do escarnecimento. E, à noite, quando vem os filmes ou programas jornalísticos, o nível de ambos é atroz, os primeiros me tomam por um imbecil, um completo estúpido; se eu for um pouco mais otimista, talvez, se possa dizer que eles pensem que sou um adulto infantilizado; os jornais, ah, dão as novas com a profundidade acessível a uma criança de oito anos. De modo que não tenho o que ver. Talvez algum programa esportivo com o devido cuidado de calibrar o áudio de modo a voz dos narradores, mormente néscios disparatados, não me chegar aos ouvidos. Só que tudo isso acaba por ter uma implicação algo grave: quando no trabalho ou na universidade me deparo com os colegas a manzanzarem sobre o que foi visto na TV. Na universidade isso me impressiona ainda mais, e lá, mais que no trabalho, a imbecilidade é algo exclusiva pois tais colegas têm, em sua maioria, o grande privilégio de, por exemplo, ver a engelhada Maitê Proença ou assistir Manhattan Connection na TV paga. Isto quer dizer que ela pagam para ouvir disparates o que é algo muito além de idiotice. Ora, sim, poderão objetar que há filmes a serem vistos, que há programas especializados, seriados, et cætera. Bem, como há meios simples acessíveis a ter esse conteúdo gratuitamente, insisto categoricamente que é burrice pagar por isso. E todos os dias me deparo com essa gente a falar sobre programas, coisas que não vi, que não me participam e, pior, que me parecem risíveis dado a persistente simplicidade infantil. Me pergunto, sempre, será que para urdir novas relações sociais terei de fazer figura de parvo?

sábado, 26 de março de 2011

58.

Querida Cecília,

Minhas mãos cheiram ainda a cebola e alho, estou um tanto farto por detestar cozinhar e ter de fazê-lo, embora a comida acabe por não ser ruim. É boa até, segundo me consta. E de quando em quando me aparece um abelhudo para me filar a boia. Diz-se que não se pode negar comida. Eu sei, mas se dou, o faço de má vontade: cozinhar, como disse, é um estupor só e hoje, afinal, assim passei o dia. Não vi e tampouco conversei, exceto quando estava a praguejar como bom cristão e as paredes a me ouvir. Saciado e de mal humor estou agora; voltarei à minha companhia russa. Depois te envio uns excertos, querida, como tem sido o costume. Lamento a breve missiva, o jeito desgradável, o mal humor, o diabo.

57.

(ontem)
Ah, querida,

sabes que lido com crianças o tempo inteiro, é da natureza do trabalho. Por isso, acredito, não me impressiona a fofura de nenhuma delas em especial e me irrita deveras o comportamento meloso das mulheres, que nas escolas são sempre a maioria, quando uma delas é tida como mais fofa. Não concordo com o fato de uma ou outra ser tomada como mais bonita, pois normalmente esta é branca e loura, o que me incomoda deveras. Algumas, é claro, me são mais simpáticas, mas normalmente o são quando se portam de modo articulado. Não precisam sequer serem quietas, isto é, não precisam ser daquelas que normalmente me dão menos trabalho, ah não. Prefiro uma criança articulada, que saiba falar direito e que mostre curiosidade a respeito das coisas que a cerca, e não uma que não fale ou que se porte de modo estúpido, e dessas há montes. Isso não quer dizer que me apeteçam as crianças demasiado falantes. Aliás, as meninas são sempre loquazes, demasiadamente. Só que são crianças. Não têm repertório. Aguentar a ladainha delas é um martírio.