sábado, 2 de abril de 2011

O juiz sorriu, dançou uma quadrilha, fez a corte e pensou consigo mesmo: não será um sonho, tudo isso? O cômodo sujo na isbá do conselho local, o feno amontoado no canto, o rumor das baratas, a mobília miserável e abjeta, as vozes das testemunhas, o vento, a nevasca, o risco de se desviar da estrada, e de repente aquelas acomodações magníficas  muito claras, o som do piano, moças bonitas, crianças de cabelos cacheados, sorrisos alegres, felizes — tamanha transformação lhe pareceu digna de um conto de fadas; e era inacreditável que uma transformação tão grande fosse possível a uma distância de apenas três verstas e a uma hora de viagem. Mas pensamentos tristes impediam que Lijin se alegrasse e ele não parava de pensar que aquilo à sua volta não era vida, mas lascas de vida, migalhas, que tudo aquilo era fortuito, não se podia tirar nenhuma conclusão definitiva; e ele até sentia pena daquelas mocinhas que vivem ali e terminam suas vidas naquele fim de mundo, na província, longe dos ambientes cultos, onde nada é fortuito, tudo é consciente, legítimo, e onde, por exemplo, todo suicídio tem uma razão de ser e pode ser explicado, porque tudo o que acontece tem um significado, no turbilhão geral da vida. 
Anton Tchekhov, O assassinato e outras histórias. Trad. Rubens Figueiredo, Cosac Naify, São Paulo, 2002, p. 176  — Em serviço.

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