terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Literatura

...tudo quanto não for vida, é literatura, A história também, A história sobretudo, sem querer ofender, E a pintura, e a música, A música anda a resistir desde que nasceu, ora vai, ora vem, quer livrar-se da palavra, suponho que por inveja, mas regressa sempre à obediência, E a pintura, Ora, a pintura não é mais que literatura feita com pincéis, Espero que não esteja esquecido de que a humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever, Conhece o rifão, se não tem cão caças com o gato, por outras palavras, quem não pode escrever pinta, ou desenha, é o que fazem as crianças...

Saramago, História do Cerco de Lisboa, p. 12

sábado, 18 de dezembro de 2010

Dia

Levantei ao fim da manhã, depois de um estado de semissonolência que me prostrou por bem mais de uma hora; estive a dormir em meio a bagunça, um Nietzsche aqui, Nassar e Rahimi juntos, como que em par, algumas peças de roupas pela cama, um Saramago que estive a ler antes de adormecer na cabeceira, logo ao lado do meu despertador que encantadoramente não se manifestou ao fim da madrugada. É sábado. E a cama, ampla. Ao levantar me prostrei por longas três horas diante do computador, só, sem entabular conversa com ninguém, embora tivesse conectado a três comunicadores. Teimosamente deixei uma janela de conversação aberta, mesmo sabendo que inexoravelmente não conversaria. Passadas as horas, almocei e, depois, passei um tempo curto, não mais que dez minutos, ao telefone. A única forma de diálogo algo duradoura que não fosse, hoje, menos que um mero gracejo. Diálogo tal e qual a todo instante eu tentava observar algum contentamento nos timbres que me chegavam aos ouvidos; não tive tanta felicidade, senti certa tristeza, mesmo algum embaraço, como quem não anseia falar, a conversa durou poucos minutos, senti na voz que me falava, no final das contas, a vontade de encetar um rumo agradável à conversa, algo que me deixou sumamente feliz, mas a conversa já findava, aliás, me amesquinhei nessas poucas palavras doces para por termo a ela; menos de dez minutos, desligamos. Prostrei-me na cama e estertorei num sono curto, equivocado, que me rendeu um sonho de tessitura real e mórbida. Acordei num sobressalto, gastei um tempo estéril a divagar sobre o sonho como quem faz uma autoanálise em busca das motivações inconscientes que engendram tais torpores mentais. Senti-me ignóbil por me ter concedido a sesta: sempre que assim procedo padeço longas horas até conciliar sono à noite. Levantei-me, fui lavar louça do almoço, ensejando não dar vazão às conjecturas que me sobrevinham. Louças lavadas; o cheiro da comida persistia na cozinha e causava fastio. Voltei ao computador, tentei trabalhar, não consegui. Azedume. Livrei-me da languidez das conjecturas. Pensei em por ordem às coisas, a cama, o quarto. Nassar e Rahimi ainda estavam em par, havia um Weber empoeirado na escrivaninha, o que me deixou embaraçado comigo mesmo; os lençóis permaneciam caóticos. O quadro não era de modo algum promissor, afinal havia ainda algumas garrafas vazias, cinzeiros repletos e nauseabundos. Guardei o Weber na estante fazendo uma reverência estúpida a esse tipo recalcitrante. Quando me vi estava só e disseram-me para dar cabo das sobras do almoço se me apetecesse. Não encetei conversas quaisquer. Pus-me a ler sobre cinema, teoria literária e cinema novamente e, mais uma vez e por teimosia, teoria literária. Nessas leituras, desejei mais uma conversa. O telefone chamou até a ligação cair. Por duas vezes, metodicamente. Amuei-me. Depois de menos de uma hora, o telefone toca. Não fui feliz; as palavras me saíam tortas, desabridas, como que flutuando muito acima do contexto; os timbres me eram claros, esboçavam enfado e cansaço, muito embora me alegrassem; afinal os ouvia. Apurei a audição; não deixei escapar nenhum tom, nuance; objetivei dar alento, soei alarmante; a conversação durou um pouco mais, as palavras que ouvi, me confortaram, embora não possa dizer o mesmo das que proferi; fui desastrado; no entanto, estava amesquinhado no meu contentamento. Fiquei a digerir criticamente a falta de jeito, de cuidado; desejei me embebedar: assim o fiz.

poesia e prosa

Não sou bom com poesia, nem com companhias. Saio-me melhor na prosa, embora tu me disseste recentemente que mesmo ela é empolada. Então me vejo num certo apuro, pois mesmo naquilo em que me tomava como aceitável, outrora mesmo bom, não é verdade — embora meu amor próprio, teimoso que é, esteja a dizer-me o contrário. O caso é que hoje queria algo e tentaria dizê-lo via poesia. Desisti. Talvez a poesia, que diz a coisa por si mesma como um acontecer que não se extingue, não seja mesmo o meu métier. A prosa ao contrário, diz um estado, situação, sensação, enfim, de um modo que é capaz mesmo de transcender o que é dito, pois nela é dada a possibilidade de dizer o detalhe e não apenas o estado bruto, uma imagem acabada, coesa, existente por si mesma. E do fragmento, um excerto qualquer perdido entre tantos períodos e orações, se pode captar algo que transcenda o texto, uma perspectiva ou interpretação que traga à baila aquilo que não foi devidamente feito claro ao entendimento, enfim, a prosa tem a capacidade de transcender-se. Talvez esteja a ser injusto com a poesia. Não sou bom com ela. E ela tem sido má comigo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

objectualidades

A diferença profunda entre a realidade e as objectualidades puramente intencionais - imaginárias ou não, de um escrito, quadro, foto, apresentação teatral, etc. - reside no fato de que as últimas nunca alcançam a determinação completa da primeira. As pessoas reais, assim como todos os objetos reais, são totalmente determinados, apresentando-se como unidades concretas, integradas de uma infinidade de predicados, dos quais apenas somente alguns podem ser 'colhidos' e 'retirados' por meio de operações cognoscitivas especiais. Tais operações são sempre finitas, não podendo por isso nunca esgotar a multiplicidade infinita das determinações do ser real, individual que é 'inefável'. Isso se refere naturalmente em particular a seres humanos, seres psicofísicos, seres espirituais, que se desenvolvem e atuam. A nossa visão em geral, e em particular dos seres humanos individuais, é extremamente fragmentária e limitada.

Idem, p. 32

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Em poemas ou romances tradicionais, a preparação especial dos aspectos é bem mais discursiva do que, por exemplo, em certos poemas elípticos de Ezra Pound ou do último Brecht, em que a justaposição ou montagem de palavras ou orações, sem nexo lógico, deve, como num ideograma, resultar na síntese intuitiva de uma imagem, graças à participação intensa do leitor no próprio processo de criação (a teoria da montagem fílmica de  Einsenstein baseia-se nos mesmos princípios).

A personagem de ficção. Candido, Rosenfeld et alli. Ed. Perspectiva, São Paulo, 2002, p. 14.

domingo, 14 de novembro de 2010

Quando te angustias com tuas angústias, te esqueces da natureza: a ti mesmo te impões infinitos desejos e temores.

Epicuro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

É bem, e o resto?

Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. 1: "Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti". Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.


― Machado de Assis.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Falastrão

— Eu?
—Sim, você! O falastrão aqui é você! Quem mais poderia ser, diabos?
— Creio que, para um amigo, Fernando, você é um cara muito rude.
— Eu um tipo muito rude? Na verdade não. Você é que é um rapaz altamente sensível. E míope. Aliás, a sua miopia progride na exata medida da sua sensibilidade. Daí, quanto menos você vê, mais sensível fica.
— Por que me diz isso?
— Por que digo isso, António? Você deveria fazer sentido, enfim, você deveria levar suas ideias até o fim. Mas não, fica a me olhar com esses olhos de cão que acabou de apanhar dono sem...
— Mas — interrompe Fernando, exasperado — eu não estou entendendo.
— Claro, e se você continuar a me interromper, não vai mesmo compreender. O caso é que você fica aí com esses olhos de cão que acabou de apanhar do dono, fica aí como quem não entendeu, como uma vítima indefesa. O fato é que você deixa os demônios que existem apenas na sua mente a conduzir sua vida como se eles fossem efetivamente reais. E não são! Você, se continuar assim, vai ficar muito mais próximo da esquizofrenia do que de mim ou qualquer outro chegado seu. Mas não, dá razão aos demônios. E depois que os lança no focinho dos outros, fica atônito e sem entender as reações das pessoas.
— Mas você está falando do que eu te mencionei.... sobre a... — Pergunta António, com ares contrariados.
— Não, Antônio, estou falando sobre suas conjecturas epistemológicas! É evidente que sim, oras! Que tipo de cara é você? Dá vazão apenas a coisas ruins que poderiam acontecer apenas numa guerra mundial. Ninguém é tão pessimista assim, mas o problema é que seus pensamentos não têm relação com o real. E você os inventa! Os ouve e os despeja nos ouvidos alheios como se eles fossem latrinas. Em vez de dar cabo dos seus demônios por você mesmo, você, ao contrário, lança-os sem refletir com mais cuidado na primeira oportunidade que se lhe apresenta. E quem é que suporta isso, um cara que fala pelos cotovelos as primeiras e, claro, as piores impressões que tem a respeito de tudo o que se passa? Mesmo assim, as coisas ainda estão bem. Você ainda tem a sua pequena, o trabalho, os estudos, enfim, mas tome nota que, se continuar assim, isso não durará para sempre.
— É, é um tanto duro, mas acho que você tem razão...
— É evidente que tenho razão! E não tem nada de muito duro. Você é que é muito mole. E tome tenência, pois se continuar assim serei eu mesmo que o trancarei no manicômio.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Evidente

Tomo tudo que é teu,
escrito, falado ou declamado,
ao pé da letra.

Ou te enfado ou me esborracho.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Escrita medíocre

Essas mentes medíocres simplesmente não conseguem se decidir a escrever como pensam, pois acham que depois o resultado poderia adquirir uma aparência muito simplória. [...] Desse modo, apresentam o que têm a dizer com construções forçadas e difíceis, neologismos e períodos extensos, que circundam o pensamento e acabam por ocultá-lo. Oscilam entre o esforço para comunicá-lo e aquele para escondê-lo. Querem guarnecer o texto de modo que ele adquira uma aparência erudita ou profunda, para que as pessoas pensem que ele contém muito mais do que se consegue perceber no momento da leitura. Sendo assim, esboçam partes do seu pensamento em expressões curtas, ambíguas e paradoxais, que parecem significar muito mais do que dizem (exemplos excelentes desse gênero encontram-se nas obras de Schelling sobre a filosofia da natureza); logo voltam a apresentar seus pensamentos com uma torrente de palavras e uma verbosidade in-suportável, como se fossem necessárias sabe-se lã quais medidas para tornar compreensível seu sentido profundo, enquanto, na verdade, trata-se de uma idéia bastante simples, para não dizer até trivial (Fichte, em seus escritos populares, e centenas de imbecis miseráveis que não merecem ser nomeados, em seus manuais filosóficos, oferecem exemplos em abundância).
— Arthur Schopenhauer.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

altercar

Não sou um tipo dado a mesuras e maneiras corteses com aqueles que me não tenho em boa conta; tampouco sou dado a afetações ou maneiras de gente bem educada quando se demonstra, não obstante a polidez com que se pode fazer isso, desafeição ou, pior, aversão a mim ou aos meus. Prefiro sempre o trato objetivo, de palavras claras, nas quais se vê a intenção sem disfarce para este ou aquele. É, também, nesses casos, meu proceder usar palavras desnudas, no limite da expressão do asco que este ou aquele tipo pode nos mostrar sem entrar de facto no enfrentamento puro e simples. Sempre prefiro a aspereza, o despudor e a dureza, tanto mais fáceis de serem alcançados quando menor é a significância daquele que se opõe. Sempre que assim se dá, tanto mais bem acabada, seca e objetiva é forma da altercação; tanto mais racionalmente orientada ela o é. Porém, quanto maior a significância daquele a quem se invectiva, tanto mais tortuosa será a oposição. Dela não se pode, quase nunca, se esperar uma forma sequer minimamente racional. Aquele que é significativo para quem quer que seja jamais está livre de ponderações irracionais, isto é, não está dissociado, nunca, de disposições ou estados mentais passionais; tais estados, seja numa disputa ou conciliação, jamais têm uma forma lógica, embora, é evidente, quanto menos aguerrido é o estado de ânimo, tanto mais se assume uma forma lógica à consecução do fim; e isto se dá, quase sempre na conciliação, pois a disputa, uma simples discussão com os entes que nos são caros e significativos, jamais têm uma forma predita; é uma torrente irracional que se acumula e se represa. De qualquer lado um dia o teu dique há de rebentar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

medo

Diz o pai dos burros que medo é um termo o qual significa, entre outras coisas, uma ansiedade irracional ou fundamentada; diz ele também que é um estado afetivo originado da consciência do perigo ou mesmo, contrariamente, oriundo desse estado da consciência. Se vê que ele pode ser, sim, fundamentado, mas quando é causado pela consciência, parece sempre ser um estado irracional ou no limar de sê-lo. Tal estado, indiferente às maneiras que se corporificam na consciência, pode surgir de modos inteiramente diversos, embora sua permanência na consciência, ao menos na aparência se dê pelas vias mencionadas.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Casado

—  Que aliança é essa?
— É que faz tempo que namoro a Doralice e me sinto como que casado — disse António, esboçando um sorriso tímido.
— Ah, então quer dizer que ela não está usando aliança, não é? — pergunta Fernando, com um ar inquisidor, sorrindo maleficamente.
— Não.
— Escute, António — procede Fernando, com um ar grave —, tens que estar casado para pôr uma aliança no dedo, depois daquela cerimónia, sabes? A tua pequena já viu essa coisa no teu dedo?
— Não — responde António, como quem se sente diminuído.
— És um paneleiro.

domingo, 21 de março de 2010

Olhos negros

Ou olhos escuros...

Em russo Очи чёрные, Ochi chyornye; inglês, Dark eyes; no francês: Les yeux noirs, enfim, é uma música russa. Apreciável, especialmente tocada no ritmo delicioso da polca.

A letra, em russo:
Очи чёрные, очи страстные,
Очи жгучие и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.

Очи чёрные, очи пламенны
И мaнят они в страны дальные,
Где царит любовь, где царит покой,
Где страданья нет, где вражды запрет.

Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.

Не встречал бы вас, не страдал бы так,
Я бы прожил жизнь улыбаючись,
Вы сгубили меня очи чёрные
Унесли на век моё счастье.

Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.
A letra, transliterada:
Ochi chyornye, ochi strastnye
Ochi zhguchie i prekrasnye
Kak lyublyu ya vas, kak boyus' ya vas
Znat' uvidel vas ya ne v dobryi chas
Ochi chyornye, ochi plamenny

I manyat oni v strany dal'nye
Gde tsarit lyubov', gde tsarit pokoi
Gde stradan'ya nyet, gde vrazhdy zaprye
Ochi chyornye, ochi strastnye

Ochi zhguchie i prekrasnye
Kak lyublyu ya vas, kak boyus' ya vas
Znat' uvidel vas ya ne v dobryi chas
Ne vstrechal by vas, ne stradal by tak
Ya by prozhil zhizn' ulybayuchis'
Vy zgubili menya ochi chyornye
Unesli na vek moyo schast'ye

Ochi chyornye, ochi strastnye
Ochi zhguchie i prekrasnye
Kak lyublyu ya vas, kak boyus' ya vas
Znat' uvidel vas ya ne v dobryi chas
E, por fim, a letra em inglês (eu não sou um dos irmãos campos pra traduzir de forma competente do russo pra o português. Contente-se com a língua de Faulkner.
Dark eyes, burning eyes
Passionate and splendid eyes
How I love you, How I fear you
Verily, I saw you at a sinister hour

Dark eyes, flaming eyes
They implore me into faraway lands
Where love reigns, where peace reigns
Where there is no suffering, where war is forbidden

Dark eyes, burning eyes
Passionate and splendid eyes
I love you so, I fear you so
Verily, I saw you at a sinister hour

If I hadn't met you, I wouldn't be suffering so
I would have lived my life smiling
You have ruined me, dark eyes
You have taken my happiness away forever

Dark eyes, burning eyes
Passionate and splendid eyes
I love you so, I fear you so
Verily, I saw you at a sinister hour

Eyes of ecstasy,
Always haunting me,
Always taunting me
With your mystery!
Tell me tenderly,
You'ld belong to me
For eternity,
Dark eyes, talk to me!
Há, também os vídeos com essa música. O primeiro deles é o com o coral do Exército Vermelho:





O segundo com o rapaz um tanto quanto estranho que o canta no filme Eastern Promises (cujo título tem a medonha tradução de "Senhores do crime"):





Adoro o som do acordeão. É sensacional. Luiz Gonzaga que o diga.

Por fim, o mesmo estranho rapaz no filme Eastern Promises (é necessário dizer que a cena do canto começa com um rapaz numa cena violenta, o que julgo de mal gosto no presente contexto). Ele não será incorporado. Para acessá-lo, clique aqui.

Desnecessário dizer que os belos olhos que ilustram o texto são de Martina Gedek, aquela mesma que ilustra a postagem anterior. Imagem do filme Baader Meinhof Complex, o qual tem seu belo pôster abaixo:

sábado, 1 de agosto de 2009

Rasos


Olhos negros
a refletir todo tom
triste ou alegre
da doçura ao azedume.

Cintilando cada nuance de ti...

Fizeram-me refém
do fulgor terno
do marejar triste
da ira ciumenta.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Alferes, tenente, capitão: Wedelmann

Sr. Asch: O seu capitão Wedelmann, com a noiva...

Kowalski: Como? Tem outra? Olhem-me para isto! Gostava de ser tão bem lançado como ele para o amor verdadeiro. Esse nunca faz nada pela metade, quer se trade de nazismo, de guerra ou de miúdas. Tudo ou nada. Para a eternidade ou então nem o dedo mínimo. O capitão e a sua última noiva de guerra.

08/15, A Derrota, p. 128

terça-feira, 16 de outubro de 2007

20 Minute Loop

The Name
Often people ask us what “20 Minute Loop” means, and because it alludes to something a bit obscure, it might behoove us to provide a little explanation. On private jets, the length of time on a digital cockpit voice recorder (CVR) that elapses before the recording begins to overlap and erase itself—an audio snake eating its tail—is twenty minutes. On commercial aircraft, the length of time on the CVR is thirty minutes. This way, there will always be roughly half an hour of cockpit conversation recorded in the unfortunate event of a crash. What we say before we die is very important to those who survive us. Famous last words are always famous, and everyone hopes that the dying will say something pithy and conciliatory, something that might suggest (we shiver with horror as we use this wretched word) closure. In the case of the CVR, investigators hope a revelation will emerge, a key to the crash; they carry the indestructible box—the “black box” that is more often orange—away from the twisted metal and carnage like a sacred reliquary. Too often, however, the pilots’ voices betray nothing but their terminal proficiency mixed with a touch of animal fear and a heavy dose of frustration for not being able to control the flying beast. Often they are eerily calm, transmitting their imminent doom to air traffic controllers who helplessly watch a green blip descend on a black screen.

This digital loop, this endless recording that awaits a disaster, is part of our mortal expectancy. Michel Montaigne wrote: “we prepare ourselves against the preparations of death.” He probably wasn’t thinking of a jumbo jet when he wrote in the Renaissance, but we can enjoy larger meanings, we hope, without feeling too ambitious. We are not scared of dying; we’re scared of its anticipation.

When we performed with I Am the World Trade Center and Smokey Hormel in 2002, a young man from the first band asked us (before he had heard our music) if we used a lot of tape loops and samples, as our band name implies. The simple answer is: No. But our sets usually run about half an hour, if not shorter, and this, of course, is the same length of time found on the CVR, and we do play the same songs, with some variation, from show to show and set to set, so maybe we do perform a kind of endless loop or sample of music that the audience rarely notices. Pop music, after all, is nothing if not repetition awaiting a disaster. Repetition is pleasurable and deep, just like the three-year-old who wants to read the same Maurice Sendak book over and over and over again, ritualizing the page-turning, the anticipation of wild things lurking in the paper leaves, mouthing the words along with the parent who feels anxious having to read this damned book one more time, only to cherish and preserve the battered copy once the child has grown older and moves on to richer repetitions that don’t include the parent.

So, like everything else, 20 Minute Loop refers to the lovely repetition of life that can never quite escape its expectancy of death. Aren’t you glad you asked?
Música. Mais informações em www.20minuteloop.com

O nome
Frequentemente as pessoas nos perguntam o que '20 Minute Loop' (Giro/Loop de vinte minutos) significa e, porque isso alude a algo um tanto obscuro, é necessário dar alguma explicação. Em jatinhos o tempo de gravação do gravador de voz digital (CVR) que passa até ele se sobrepor e apagar a si mesmo — como uma cobra a comer o próprio rabo — é de vinte minutos. Num avião comercial de linha o tempo de gravação do CVR é de trinta minutos. Assim, sempre haverá cerca de meia hora de conversa gravada na cabine de comando no caso de algum desastre. O que dizemos antes de morrer é muito importante para as pessoas que nos sobrevivem. As famosas últimas palavras são sempre famosas, e todos têm esperança de que aqueles que estão prestes a morrer digam algo de simples e terno, algo que possa sugerir (e nós trememos de horror ao usar essa palavra infame) o fim. No caso do CVR, peritos terão a esperança de que alguma pista surja, a chave para o acidente; eles levam a caixa indestrutível — a 'caixa preta' que é comumente laranja — para longe daquela mortandade e metais retorcidos como uma espécie de relicário sagrado. Muitas vezes, entretanto, as vozes dos pilotos traem nada mais que a competência de quem morrerá misturada a um toque de medo animal e uma pesada dose de frustração por não ser capaz de controlar a besta voadora. Com frequência suas vozes são estranhamente calmas, transmitindo seu iminente fim aos controladores de tráfego que assistem impotentes um ponto verde a descer numa tela negra.

Esse  loop digital, essa gravação interminável que espera um desastre é parte de nossa expectativa finita. Michel Montaigne escreveu: 'preparamo-nos contra os preparativos da morte'. Ele provavelmente não estava a pensar num jumbo quando ele escreveu na Renascença, mas podemos estender os significados, esperamos, sem nos sentirmos tão ambiciosos.  Não temos medo da morte; temos medo de sua antecipação.

Quando tocamos com I am the World Trade Center e Smokey Hormel em 2002, um jovem rapaz da primeira banda nos perguntou (antes que ele tivesse ouvido nossa música) se nós usávamos um monte de loops de fitas e amostras, como o nome da banda implica. A resposta é simples: não. Mas nossas apresentações usualmente duram cerca de meia hora, senão menos,  e isso, é claro, é a mesma duração do CVR e tocamos as mesmas músicas, com alguma variação, de show para show e de set para set, então talvez nós executemos algum tipo de loop sem fim ou amostra de música que o público raramente nota. A música pop, finalmente, não é nada senão a repetição de um desastre esperado. A repetição é agradável e profunda, tal como uma criança de três anos que quer ler o mesmo livro de Maurice Sendak uma e outra e outra vez, ritualizando a virada de cada página, a antecipação das coisas selvagens à espreita nas folhas de papel, murmurando as palavras junto com um dos pais que se sente agoniado por ter de ler este maldito livro mais uma vez, apenas para valorizar e preservar aquela surrada versão da criança quando ela tiver crescido e se mover para repetições mais ricas que não incluem os pais.

Então, como tudo na vida, 20 Minute Loop se refere à amável repetição da vida a qual jamais escapará da expectativa de sua morte. Você não está feliz por ter perguntado?


terça-feira, 25 de setembro de 2007

sorver

tão sem jeito
esse coração teu,

pouco comedido, precipitado
afeito apenas àquela

enxerga nela a margarida
fosse naquela flor, dantes amarela, vibrante

nas tuas madeixas, no teu olhar de menina
no refletir insinuante, te escapo aos braços

não chegas às notas altas,
às falas articuladas, ponderadas, cristalinas

mesmo a dizer não, tu percorre-me os ouvidos
no telefone, no curto recado do telemóvel

nas tuas imagens
nas tuas composições

dizes ainda que falta muito
para que vá onde queres

fica cá, ambivalente
a percorrer-me a memória

apenas um pouco de ti
teu calor, pudores

anseios teus
similares aos que construí

aqui, sem ajuda
para mim, apenas

sem nunca consultar a ti
a quem quer seja

vens, agora
não te vá, é tarde

esperançoso que queiras
dá me convites, vou

ora finjo esquecer
teimosamente.

mas estou cá,
com esses olhos de cão

seguindo, aproximando
rosnando e mordendo

o tempo todo
cenho franzido, rude, ressentido da tua falta

grosseiro de não chegar a ti
arrogante, farta-me de tanto saber

que desejo teu afagos
e minhas mãos, quentes de ti

das mechas até envolver-te
até tomar teu corpo, com força

a roubar teus lábios
sorvê-los.

escrevinhar

"Sou capaz de escrevinhar insolentes missivas e azucrinar o mais pacato dos cristãos, seja ele juiz de direito ou um bárbaro teutão."

o mau

Clint Eastwood

domingo, 23 de setembro de 2007

Teus timbres

Nouvelle Vague
20 Minute Loop
Delgados
Não bastam.
Quero aí ouvir a tua voz,
a narrar-me tuas histórias
a cantar-me tuas notas
a sussurrar nos meus ouvidos

Teus Timbres

Bildungsroman

Excertos do Jovem Törless de Robert Musil.

"...
— Sim, uns trechos novos de trigonometria, mas você vai acertar tudo, não há novidade.
— O que mais?
— Religião.
— Religião? Ah, é. Vamos ver... Acho que, quando estou animado, posso provar tão bem que dois mais dois são cinco quanto que só pode existir um Deus..." p. 28

"...
Törless entregou-se inteiramente à fluência deles, pois sua condição espiritual era mais ou menos a seguinte: em sua idade lia-se no ginásio Goethe, Schiller, Shakespeare, talvez até os modernos. Coisas que, semidigeridas, mais tarde são exteriorizadas por escrito, e surgem tragédias romanas ou poemas sentimentais, páginas inteiras de pontuação semelhante a uma renda delicada: coisas em si tolas, conquanto inestimáveis para que se tenha um desenvolvimento seguro. Pois essas associações, vindas de fora, essas emoções tomadas de empréstimo, ajudam os jovens a caminhar sobre um solo espiritual excessivamente macio desses anos, nos quais eles têm necessidade de descobrir o sentido de si próprios, ainda que imaturos demais para fazerem qualquer sentido. Não importa que alguns guardem vestígios disso e outros não; mais tarde todos aprenderão a conviver consigo próprios. O perigo reside apenas na idade de transição. Se nessa fase pudéssemos fazer o adolescente ver o quanto é ridículo, o chão abriria sob seus pés e ele despencaria como um sonâmbulo que, subitamente despertado, não vê senão um vácuo à sua frente." p. 14-15

"...
Mas já no dia seguinte teve uma grande decepção. Pela manhã, comprara o volume de Kant que vira na mesa do professor, e no primeiro intervalo pôs-se a ler. Mas com tantos parênteses e notas de rodapé, não entendia nada; e quando seguia escrupulosamente as linhas com os olhos, era como se uma velha mão descarnada fizesse seu cérebro girar em espirais, arrancando-o de dentro do crânio.

Quando, meia hora depois, parou exausto, havia gotas de suor em sua testa — e chegara apenas à segunda pagina.

Apertou os dentes e leu mais uma página até o intervalo acabar.

À noite, já não desejava nem tocar no livro. Medo? Repulsa? Não sabia. Só uma coisa o atormentava, nítida: era que o professor, pessoa de aparência tão apagada, tivesse aquele livro bem exposto no quarto, como se ele fosse uma diversão cotidiana." p. 108

Extraídos de O Jovem Törless. MUSIL, Robert. Ed. Nova Fronteira. Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro, 1981.

Robert Musil, 1880-1942.


Sobre o escritor:
pt.wikipedia.org & en.wikipedia.org

Gabriela

Gabriela

Gabriela era dessas gajas barulhentas.
A reclamar a cada subida,
balouçando-se e rangendo por todos os recônditos
Hoje, carcomida pelo tempo
Pelas moçoilas mais novas
Amélias, Vitórias
Tomaram seu lugar
E elas mesmas andam já decrépitas
E ninguém sente saudades de ti,
Pois tu, Gabriela, foste sempre muito dura.