domingo, 14 de novembro de 2010
sábado, 13 de novembro de 2010
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
É bem, e o resto?
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Falastrão
—Sim, você! O falastrão aqui é você! Quem mais poderia ser, diabos?
— Creio que, para um amigo, Fernando, você é um cara muito rude.
— Eu um tipo muito rude? Na verdade não. Você é que é um rapaz altamente sensível. E míope. Aliás, a sua miopia progride na exata medida da sua sensibilidade. Daí, quanto menos você vê, mais sensível fica.
— Por que me diz isso?
— Por que digo isso, António? Você deveria fazer sentido, enfim, você deveria levar suas ideias até o fim. Mas não, fica a me olhar com esses olhos de cão que acabou de apanhar dono sem...
— Mas — interrompe Fernando, exasperado — eu não estou entendendo.
— Claro, e se você continuar a me interromper, não vai mesmo compreender. O caso é que você fica aí com esses olhos de cão que acabou de apanhar do dono, fica aí como quem não entendeu, como uma vítima indefesa. O fato é que você deixa os demônios que existem apenas na sua mente a conduzir sua vida como se eles fossem efetivamente reais. E não são! Você, se continuar assim, vai ficar muito mais próximo da esquizofrenia do que de mim ou qualquer outro chegado seu. Mas não, dá razão aos demônios. E depois que os lança no focinho dos outros, fica atônito e sem entender as reações das pessoas.
— Mas você está falando do que eu te mencionei.... sobre a... — Pergunta António, com ares contrariados.
— Não, Antônio, estou falando sobre suas conjecturas epistemológicas! É evidente que sim, oras! Que tipo de cara é você? Dá vazão apenas a coisas ruins que poderiam acontecer apenas numa guerra mundial. Ninguém é tão pessimista assim, mas o problema é que seus pensamentos não têm relação com o real. E você os inventa! Os ouve e os despeja nos ouvidos alheios como se eles fossem latrinas. Em vez de dar cabo dos seus demônios por você mesmo, você, ao contrário, lança-os sem refletir com mais cuidado na primeira oportunidade que se lhe apresenta. E quem é que suporta isso, um cara que fala pelos cotovelos as primeiras e, claro, as piores impressões que tem a respeito de tudo o que se passa? Mesmo assim, as coisas ainda estão bem. Você ainda tem a sua pequena, o trabalho, os estudos, enfim, mas tome nota que, se continuar assim, isso não durará para sempre.
— É, é um tanto duro, mas acho que você tem razão...
— É evidente que tenho razão! E não tem nada de muito duro. Você é que é muito mole. E tome tenência, pois se continuar assim serei eu mesmo que o trancarei no manicômio.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Evidente
escrito, falado ou declamado,
ao pé da letra.
Ou te enfado ou me esborracho.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Escrita medíocre
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
altercar
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
medo
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Casado
— É que faz tempo que namoro a Doralice e me sinto como que casado — disse António, esboçando um sorriso tímido.
— Ah, então quer dizer que ela não está usando aliança, não é? — pergunta Fernando, com um ar inquisidor, sorrindo maleficamente.
— Não.
— Escute, António — procede Fernando, com um ar grave —, tens que estar casado para pôr uma aliança no dedo, depois daquela cerimónia, sabes? A tua pequena já viu essa coisa no teu dedo?
— Não — responde António, como quem se sente diminuído.
— És um paneleiro.
domingo, 21 de março de 2010
Olhos negros
Em russo Очи чёрные, Ochi chyornye; inglês, Dark eyes; no francês: Les yeux noirs, enfim, é uma música russa. Apreciável, especialmente tocada no ritmo delicioso da polca.
A letra, em russo:
Очи чёрные, очи страстные,A letra, transliterada:
Очи жгучие и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.
Очи чёрные, очи пламенны
И мaнят они в страны дальные,
Где царит любовь, где царит покой,
Где страданья нет, где вражды запрет.
Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.
Не встречал бы вас, не страдал бы так,
Я бы прожил жизнь улыбаючись,
Вы сгубили меня очи чёрные
Унесли на век моё счастье.
Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.
Ochi chyornye, ochi strastnye
Ochi zhguchie i prekrasnye
Kak lyublyu ya vas, kak boyus' ya vas
Znat' uvidel vas ya ne v dobryi chas
Ochi chyornye, ochi plamenny
I manyat oni v strany dal'nye
Gde tsarit lyubov', gde tsarit pokoi
Gde stradan'ya nyet, gde vrazhdy zaprye
Ochi chyornye, ochi strastnye
Ochi zhguchie i prekrasnye
Kak lyublyu ya vas, kak boyus' ya vas
Znat' uvidel vas ya ne v dobryi chas
Ne vstrechal by vas, ne stradal by takE, por fim, a letra em inglês (eu não sou um dos irmãos campos pra traduzir de forma competente do russo pra o português. Contente-se com a língua de Faulkner.
Ya by prozhil zhizn' ulybayuchis'
Vy zgubili menya ochi chyornye
Unesli na vek moyo schast'ye
Ochi chyornye, ochi strastnye
Ochi zhguchie i prekrasnye
Kak lyublyu ya vas, kak boyus' ya vas
Znat' uvidel vas ya ne v dobryi chas
Dark eyes, burning eyesHá, também os vídeos com essa música. O primeiro deles é o com o coral do Exército Vermelho:
Passionate and splendid eyes
How I love you, How I fear you
Verily, I saw you at a sinister hour
Dark eyes, flaming eyes
They implore me into faraway lands
Where love reigns, where peace reigns
Where there is no suffering, where war is forbidden
Dark eyes, burning eyes
Passionate and splendid eyes
I love you so, I fear you so
Verily, I saw you at a sinister hour
If I hadn't met you, I wouldn't be suffering so
I would have lived my life smiling
You have ruined me, dark eyes
You have taken my happiness away forever
Dark eyes, burning eyes
Passionate and splendid eyes
I love you so, I fear you so
Verily, I saw you at a sinister hour
Eyes of ecstasy,
Always haunting me,
Always taunting me
With your mystery!
Tell me tenderly,
You'ld belong to me
For eternity,
Dark eyes, talk to me!
O segundo com o rapaz um tanto quanto estranho que o canta no filme Eastern Promises (cujo título tem a medonha tradução de "Senhores do crime"):
Adoro o som do acordeão. É sensacional. Luiz Gonzaga que o diga.
Por fim, o mesmo estranho rapaz no filme Eastern Promises (é necessário dizer que a cena do canto começa com um rapaz numa cena violenta, o que julgo de mal gosto no presente contexto). Ele não será incorporado. Para acessá-lo, clique aqui.
Desnecessário dizer que os belos olhos que ilustram o texto são de Martina Gedek, aquela mesma que ilustra a postagem anterior. Imagem do filme Baader Meinhof Complex, o qual tem seu belo pôster abaixo:
sábado, 1 de agosto de 2009
Rasos
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Alferes, tenente, capitão: Wedelmann
Kowalski: Como? Tem outra? Olhem-me para isto! Gostava de ser tão bem lançado como ele para o amor verdadeiro. Esse nunca faz nada pela metade, quer se trade de nazismo, de guerra ou de miúdas. Tudo ou nada. Para a eternidade ou então nem o dedo mínimo. O capitão e a sua última noiva de guerra.
08/15, A Derrota, p. 128
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
terça-feira, 16 de outubro de 2007
20 Minute Loop
Often people ask us what “20 Minute Loop” means, and because it alludes to something a bit obscure, it might behoove us to provide a little explanation. On private jets, the length of time on a digital cockpit voice recorder (CVR) that elapses before the recording begins to overlap and erase itself—an audio snake eating its tail—is twenty minutes. On commercial aircraft, the length of time on the CVR is thirty minutes. This way, there will always be roughly half an hour of cockpit conversation recorded in the unfortunate event of a crash. What we say before we die is very important to those who survive us. Famous last words are always famous, and everyone hopes that the dying will say something pithy and conciliatory, something that might suggest (we shiver with horror as we use this wretched word) closure. In the case of the CVR, investigators hope a revelation will emerge, a key to the crash; they carry the indestructible box—the “black box” that is more often orange—away from the twisted metal and carnage like a sacred reliquary. Too often, however, the pilots’ voices betray nothing but their terminal proficiency mixed with a touch of animal fear and a heavy dose of frustration for not being able to control the flying beast. Often they are eerily calm, transmitting their imminent doom to air traffic controllers who helplessly watch a green blip descend on a black screen.
This digital loop, this endless recording that awaits a disaster, is part of our mortal expectancy. Michel Montaigne wrote: “we prepare ourselves against the preparations of death.” He probably wasn’t thinking of a jumbo jet when he wrote in the Renaissance, but we can enjoy larger meanings, we hope, without feeling too ambitious. We are not scared of dying; we’re scared of its anticipation.
When we performed with I Am the World Trade Center and Smokey Hormel in 2002, a young man from the first band asked us (before he had heard our music) if we used a lot of tape loops and samples, as our band name implies. The simple answer is: No. But our sets usually run about half an hour, if not shorter, and this, of course, is the same length of time found on the CVR, and we do play the same songs, with some variation, from show to show and set to set, so maybe we do perform a kind of endless loop or sample of music that the audience rarely notices. Pop music, after all, is nothing if not repetition awaiting a disaster. Repetition is pleasurable and deep, just like the three-year-old who wants to read the same Maurice Sendak book over and over and over again, ritualizing the page-turning, the anticipation of wild things lurking in the paper leaves, mouthing the words along with the parent who feels anxious having to read this damned book one more time, only to cherish and preserve the battered copy once the child has grown older and moves on to richer repetitions that don’t include the parent.
So, like everything else, 20 Minute Loop refers to the lovely repetition of life that can never quite escape its expectancy of death. Aren’t you glad you asked?
Música. Mais informações em www.20minuteloop.com
O nome
Frequentemente as pessoas nos perguntam o que '20 Minute Loop' (Giro/Loop de vinte minutos) significa e, porque isso alude a algo um tanto obscuro, é necessário dar alguma explicação. Em jatinhos o tempo de gravação do gravador de voz digital (CVR) que passa até ele se sobrepor e apagar a si mesmo — como uma cobra a comer o próprio rabo — é de vinte minutos. Num avião comercial de linha o tempo de gravação do CVR é de trinta minutos. Assim, sempre haverá cerca de meia hora de conversa gravada na cabine de comando no caso de algum desastre. O que dizemos antes de morrer é muito importante para as pessoas que nos sobrevivem. As famosas últimas palavras são sempre famosas, e todos têm esperança de que aqueles que estão prestes a morrer digam algo de simples e terno, algo que possa sugerir (e nós trememos de horror ao usar essa palavra infame) o fim. No caso do CVR, peritos terão a esperança de que alguma pista surja, a chave para o acidente; eles levam a caixa indestrutível — a 'caixa preta' que é comumente laranja — para longe daquela mortandade e metais retorcidos como uma espécie de relicário sagrado. Muitas vezes, entretanto, as vozes dos pilotos traem nada mais que a competência de quem morrerá misturada a um toque de medo animal e uma pesada dose de frustração por não ser capaz de controlar a besta voadora. Com frequência suas vozes são estranhamente calmas, transmitindo seu iminente fim aos controladores de tráfego que assistem impotentes um ponto verde a descer numa tela negra.
Esse loop digital, essa gravação interminável que espera um desastre é parte de nossa expectativa finita. Michel Montaigne escreveu: 'preparamo-nos contra os preparativos da morte'. Ele provavelmente não estava a pensar num jumbo quando ele escreveu na Renascença, mas podemos estender os significados, esperamos, sem nos sentirmos tão ambiciosos. Não temos medo da morte; temos medo de sua antecipação.
Quando tocamos com I am the World Trade Center e Smokey Hormel em 2002, um jovem rapaz da primeira banda nos perguntou (antes que ele tivesse ouvido nossa música) se nós usávamos um monte de loops de fitas e amostras, como o nome da banda implica. A resposta é simples: não. Mas nossas apresentações usualmente duram cerca de meia hora, senão menos, e isso, é claro, é a mesma duração do CVR e tocamos as mesmas músicas, com alguma variação, de show para show e de set para set, então talvez nós executemos algum tipo de loop sem fim ou amostra de música que o público raramente nota. A música pop, finalmente, não é nada senão a repetição de um desastre esperado. A repetição é agradável e profunda, tal como uma criança de três anos que quer ler o mesmo livro de Maurice Sendak uma e outra e outra vez, ritualizando a virada de cada página, a antecipação das coisas selvagens à espreita nas folhas de papel, murmurando as palavras junto com um dos pais que se sente agoniado por ter de ler este maldito livro mais uma vez, apenas para valorizar e preservar aquela surrada versão da criança quando ela tiver crescido e se mover para repetições mais ricas que não incluem os pais.
Então, como tudo na vida, 20 Minute Loop se refere à amável repetição da vida a qual jamais escapará da expectativa de sua morte. Você não está feliz por ter perguntado?
terça-feira, 25 de setembro de 2007
sorver
esse coração teu,
pouco comedido, precipitado
afeito apenas àquela
enxerga nela a margarida
fosse naquela flor, dantes amarela, vibrante
nas tuas madeixas, no teu olhar de menina
no refletir insinuante, te escapo aos braços
não chegas às notas altas,
às falas articuladas, ponderadas, cristalinas
mesmo a dizer não, tu percorre-me os ouvidos
no telefone, no curto recado do telemóvel
nas tuas imagens
nas tuas composições
dizes ainda que falta muito
para que vá onde queres
fica cá, ambivalente
a percorrer-me a memória
apenas um pouco de ti
teu calor, pudores
anseios teus
similares aos que construí
aqui, sem ajuda
para mim, apenas
sem nunca consultar a ti
a quem quer seja
vens, agora
não te vá, é tarde
esperançoso que queiras
dá me convites, vou
ora finjo esquecer
teimosamente.
mas estou cá,
com esses olhos de cão
seguindo, aproximando
rosnando e mordendo
o tempo todo
cenho franzido, rude, ressentido da tua falta
grosseiro de não chegar a ti
arrogante, farta-me de tanto saber
que desejo teu afagos
e minhas mãos, quentes de ti
das mechas até envolver-te
até tomar teu corpo, com força
a roubar teus lábios
sorvê-los.
escrevinhar
domingo, 23 de setembro de 2007
Bildungsroman
Excertos do Jovem Törless de Robert Musil.
"...
— Sim, uns trechos novos de trigonometria, mas você vai acertar tudo, não há novidade.
— O que mais?
— Religião.
— Religião? Ah, é. Vamos ver... Acho que, quando estou animado, posso provar tão bem que dois mais dois são cinco quanto que só pode existir um Deus..." p. 28
"...
Törless entregou-se inteiramente à fluência deles, pois sua condição espiritual era mais ou menos a seguinte: em sua idade lia-se no ginásio Goethe, Schiller, Shakespeare, talvez até os modernos. Coisas que, semidigeridas, mais tarde são exteriorizadas por escrito, e surgem tragédias romanas ou poemas sentimentais, páginas inteiras de pontuação semelhante a uma renda delicada: coisas em si tolas, conquanto inestimáveis para que se tenha um desenvolvimento seguro. Pois essas associações, vindas de fora, essas emoções tomadas de empréstimo, ajudam os jovens a caminhar sobre um solo espiritual excessivamente macio desses anos, nos quais eles têm necessidade de descobrir o sentido de si próprios, ainda que imaturos demais para fazerem qualquer sentido. Não importa que alguns guardem vestígios disso e outros não; mais tarde todos aprenderão a conviver consigo próprios. O perigo reside apenas na idade de transição. Se nessa fase pudéssemos fazer o adolescente ver o quanto é ridículo, o chão abriria sob seus pés e ele despencaria como um sonâmbulo que, subitamente despertado, não vê senão um vácuo à sua frente." p. 14-15
"...
Mas já no dia seguinte teve uma grande decepção. Pela manhã, comprara o volume de Kant que vira na mesa do professor, e no primeiro intervalo pôs-se a ler. Mas com tantos parênteses e notas de rodapé, não entendia nada; e quando seguia escrupulosamente as linhas com os olhos, era como se uma velha mão descarnada fizesse seu cérebro girar em espirais, arrancando-o de dentro do crânio.
Quando, meia hora depois, parou exausto, havia gotas de suor em sua testa — e chegara apenas à segunda pagina.
Apertou os dentes e leu mais uma página até o intervalo acabar.
À noite, já não desejava nem tocar no livro. Medo? Repulsa? Não sabia. Só uma coisa o atormentava, nítida: era que o professor, pessoa de aparência tão apagada, tivesse aquele livro bem exposto no quarto, como se ele fosse uma diversão cotidiana." p. 108
Extraídos de O Jovem Törless. MUSIL, Robert. Ed. Nova Fronteira. Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro, 1981.
Sobre o escritor:
pt.wikipedia.org & en.wikipedia.org
Gabriela

Gabriela era dessas gajas barulhentas.
A reclamar a cada subida,
balouçando-se e rangendo por todos os recônditos
Hoje, carcomida pelo tempo
Pelas moçoilas mais novas
Amélias, Vitórias
Tomaram seu lugar
E elas mesmas andam já decrépitas
E ninguém sente saudades de ti,
Pois tu, Gabriela, foste sempre muito dura.
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Dentista
Não mencionei, mas tenho certo pavor desses gajos que nos metem alicates, seringas e tudo mais na boca - e ainda dizem que é para o nosso bem. Certamente o é, mas sempre me sinto num açougue quando estou num consultório, com a desconfortável e real sensação de que a carne a ser trinchada ali, naquela cadeira, sou eu; não é encorajador, eu sei, nunca me recuso a ir ao consultório. Mas não gosto.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
A guerra, II
— Podia muito bem ter ido procurar-me — disse Lisa Ebner, olhando em volta com uma expressão de descontentamento. — Ou julgará, por acaso, que me pode dar ordens como aos seus soldados?
— Não dou ordens aos soldados — respondeu Asch, em tom pouco amável. — Deixo isso a outros.
— Isso é com o capitão Witterer?
— Pergunte-lhe se ele se sente atingido. Mas isso fica para mais tarde. Por agora, sente-se.
Lisa Ebner olhava para Asch como se este fosse um animal curioso e contagioso ainda por cima. Depois contemplou de novo o que a rodeava. Fungou, outra vez, descontente, franzindo seu gentil narizinho.
Encontravam-se na sala principal da messe dos soldados, na etapa. Assemelhava-se a ela até certo ponto a uma sala de espera, muito arruinada, de 3ª classe, numa guarnição longínqua. Só faltavam ali os horários dos comboios. Em compensação havia ali alguns cartazes publicitários, todos ornados, é certo, de frases patrióticas. O Führer também não fora esquecido.
Apenas alguns soldados não estavam presentes, pois a hora das verdadeiras distracções não chegara ainda. A ração de vinho baptizado, muito apreciada e que aumentava a força combativa, nuca era distribuída antes do cair da noite. Os iniciados renunciavam todos, magnanimamente, ao chá da tarde ou à sopa de pão. Os que se encontravam ali eram, portanto, na sua maior parte, extraviados.
A um canto berrava sem parar um alto-falante. Ninguém os ouvia. Os mugidos contínuos da rádio eram tão indispensáveis a esta guerra como o ar para respirar.
Lisa Ebner sentou-se num banco, em frente ao sargento Asch. Automaticamente, sacudiu o vestido, pois tinha a algum tanto penosa impressão de saber que todos os seus movimentos eram observados. Esforçava-se por olhar Asch de cima, o que não parecia incomodá-lo muito.
— Eu não sou sua empregada — disse ela.
— Ainda ninguém o disse.
— Sendo assim queira tratar-me de outra maneira.
— Como? Como a um ovo?
— O senhor é impossível! — exclamou Lisa, lançando-lhe olhares indignados. — É, nem mais, nem menos, um insolente. Outros sentir-se-iam felizes por se encontrarem aqui sentados, comigo. Mas o senhor é ainda capaz de acreditar que me está a fazer um favor. Que está a pensar, afinal de contas?
— Não me faça essa pergunta.
— Será por acaso uma táctica sua?
— Minha querida menina Lisa Ebner — respondeu Asch, mirando as mãos —, eu sou casado.
— Já mo disse. Mas pode mudar de disco. Ou será também uma táctica?
— Como mulher — respondeu Asch, inclinando-se sobre a mesa e olhando-a fixamente — não me interessa nada. Nem tanto como isso. Para mim é unicamente uma pessoa com quem trato dum assunto, tal qual como com o representante do depósito de abastecimento ou do armazém de caixões. Tenciono discutir consigo uma questão de serviço e é tudo. Para os assuntos particulares não tenho competência. Não sou eu quem a tem.
— Essa graça é outra vez com o capitão Witterer? Asch abanou lentamente a cabeça, insinuando assim que a considerava "dura da cachimónia".
— Mandei um dos meus camaradas ao alojamento do seu grupo — disse ele — para que me enviassem aqui alguém em condições de tratar comigo. Quem? Estou-me nas tintas quanto a isso. Não quis ir para sua casa com receio de perturbar qualquer idílio. Supus que fosse o vosso parceiro macho, o ilusionista, quem aparecesse. Na verdade, não tinha imaginado que viria você em pessoa. De resto, é-me indiferente.
— Ora vejam!
— Perfeitamente indiferente.
— Está bem — disse Lisa Ebner, procurando tomar uma decisão. — Também não peço outra coisa. Seja como for. O nosso grupo dividiu o trabalho de organização. Sou eu quem deve preparar o espetáculo extraordinário para os senhores. Portanto, quer lhe agrade, quer não tem de contentar-se comigo.
— Contento-me consigo, como está vendo —, respondeu Asch, fleumaticamente.
Depois procurou com o olhar a criada Betty. Ela aproximou-se, sem se apressar muito. Asch olhou-a com amabilidade.
— É com certeza a menina Betty? — perguntou, com crescente cordialidade essa mulher pesada e maternal.
— Como sabe, sargento?
— De acordo com a descrição que me fizeram, não pode deixar de ser a senhora.
— Fizeram uma descrição de mim? — perguntou ela, assustada.
— Cumprimento-a da parte do Subalterno Soëft. Estou na mesma bateria.
— Então são assim os amigos desse pulha desse vendedor ambulante? Imaginava-os doutra maneira. Você tem um ar mais ou menos normal.
— Por vezes a gente engana-se — disse Lisa, num tom convicto.
— Também me enganaria — declarou a criada, fazendo um sinal de assentimento a Lisa. — Mas, uma vez que está aqui, não quero causar uma decepção a Soëft. Então que quer beber?
— Se tenho o direito de escolher — disse Herbert, de bom humor — queria uma cerveja. Mas daquela que faz "pschi!". Há meses que a não bebo.
— Terá o que quer — disse Betty num tom ao mesmo tempo brusco e cordial. — E a menina?
— Um café!?
— Porque não? Tê-lo-á. O gângster do Soëft se arranjará para substituir.
A criada afastou-se.
— Faz-me lembrar a minha sogra — disse Asch.
— Também isso é ilusão de óptica — disse Lisa Ebner, agastada. — As mulheres, perto da frente, nunca são mais que ersatz. Fazemo-vos sempre lembrar outra mulher qualquer. Quando somos novas, a vossa noiva. quando somos velhas, as vossas mamãs. E, pouco a pouco, isso deixa de ter graça.
Você dá-me a impressão de ter coleccionado um bom número de experiências. Há quanto tempo anda metida nesta história?
— Na frente? Estou aqui pela primeira vez.
— Não está na frente, mas sim atrás da frente — corrigiu gentilmente Asch. E, antes disto, onde exerceu o seu talento?
— Nos hospitais.
— Isso estava bem. Estaria mais no seu lugar. Mas não foi lá com certeza que encontrou o seu capitão Witterer!...
— Ele não é meu capitão. Não lho disse já? Conheço-o, e nada mais.
— Conhece mais alguns da mesma maneira?
— Ainda que isto o inquiete, conheço uma quantidade deles. Por exemplo o comandante Baer. E também o capitão Runge e o comandante von Falckenstein. E ainda...
— Já me chega — interrompeu Asch num tom desagradável.
— Nomes assim podia citar-lhe dúzias deles.
— Elabore uma lista, mande tirar cópias ao duplicador e distribua-as por todos aqueles a quem interessar, como, digamos assim, certificado de capacidade, como certificado de rendimentos ou outros deste gênero.
Lisa Ebner olhava-o com os olhos dilatados, muito aberto. Olhos sombrios e tristes. Eram olhos de criança, tal como Asch pôde verificar. Que lentamente, muito lentamente, se enchiam de lágrimas.
— Porque me diz essas coisas? — perguntou ela, em voz baixa, como se sentisse desamparada. — Por quem me toma? Porque supõe que eu... que eu...
E Lisa começou a chorar. Grossas lágrimas rolavam-lhe pelo rosto e caíam na mesa mal limpa. Ela chorava sem ruído e seus ombros mantinham-se imóveis.
— Não chore, vamos — disse Asch, muito aborrecido. — Porque está a chorar?
Lisa continuava a chorar. Sem ruído. Sem se mover.
— Vamos domine-se. Meu Deus, se toda a gente aqui quisesse pôr-se a chorar!...
Betty aproximou-se lentamente da mesa. Depôs sobre ela o café, que desprendia um aroma intenso, e colocou diante de Asch uma caneca de cerveja. Depois examinou a rapariga e o sargento com um descontentamento crescente.
— É, realmente és um amigo íntimo desse patife do Soëft — disse por fim, com convicção. — Vê-se. Mas não se rale menina. Não é com certeza o único homem que existe neste sítio.
— Era só o que faltava, que começasse também a chorar, menina Betty.
— Pode esperar por isso enquanto a Guerra durar, rapaz. — E depois de ter assim falado a criada afastou-se, resmungando.
A torrente de lágrimas de Lisa não se esgotara ainda. Asch não sabia já o que fazer. Instintivamente puxou pelo lenço, mas teve presença de espírito bastante para não o oferecer à rapariga, pois estava muito longe de se encontrar limpo..
— Alcame-se, vamos. Não quis ofendê-la. Creia que não quis.
— Quis, sim — disse Lisa, fogosamente.
— Pois bem. Se faz questão disso, desculpe. Peço-lhe que me desculpe. Não tive intenção de ofendê-la. Desculpe-me. Peço-lhe.
Lisa não respondeu. Mas as lágrimas já não corriam. Acumulavam-se nos grandes olhos que brilhavam agora docemente.
— Sabe, menina Lisa Ebner — acrescentou Asch, vivamente —, nós aqui não estamos aquilo que se pode chamar estragados com mimo. E esquecemos muitas coisas. Conhecemos apenas os camaradas, e, a eles, apenas para comer e morrer.
— Não tenho nada que ver com isso.
Lisa fez desaparecer com as costas das mãos os sinais das lágrimas. A sua pele, verificou Asch com prazer, não tinha qualquer vestígio de pó de arroz. Brilhava um pouco vermelha agora, mas era lisa e saudável.
Lisa tirou um espelho da malinha. O que nele viu pareceu tranqüilizá-la. Soprou duas vezes para cima, em direção ao seu gracioso nariz. Depois tentou outra vez olhar Asch com uma expressão provocadora.
Não deixe arrefecer o café — disse ele.
Lisa, obediente, bebeu em movimentos um pouco bruscos. Era uma rapariga encantadora. Muito nova e quase ingénua ainda.
De súbito, Asch sentiu um vivo desejo de que ela se mantivesse tal como era agora. Foi nisso que pensou enquanto bebia uma boa golada de cerveja. E este pensamento não o deixou mais.
— Deve tentar, de uma vez para sempre, saber o que nós pensamos — disse depois. — Vejamos, por exemplo, o eterno assunto número um: as mulheres. Muito bons pensamentos, expressos em milhões de cartas. Mas não há só esses bons pensamentos. Há também as ilustrações dos jornais militares, os magazines, as canções equívocas da rádio para os soldados. E depois as conversas das retretes e das noites e os devaneios provocados pelo álcool. De repente, eis que aparecem verdadeiras mulheres cruzando nosso caminho. Elas misturam-se connosco: mais ou menos uma para cem mil. De vez em quando passa-se qualquer coisa, mas não quererá negar com certeza! E a ocasião favorável só existe ainda para aqueles que ainda têm um um quarto e uma cama. Mas a coisa sabe-se depressa. E, para muitos, elas são, por princípio, prostitutas para oficiais. E o desejo sexual é, como o desejo de comer, particularmente desenvolvido aqui. Conte com isso. Nada se pode fazer em contrário.
— Com indivíduos que pensam dessa maneira, não queremos quaisquer relações.
— Mas você não pode escolher os que a olham.
— Felizmente ainda há homens em que se pode confiar.
— Não me sinto ofendido por verificar que não me inclui no número desses — disse Asch, indiferente. Depois perguntou: e o Capitão Witterer? Pode confiar nele?
— Conheci-o na Alemanha. Foi muito delicado para comigo, muito bem educado. E como ele tinha altas relações — o comandante Baer é seu amigo íntimo — pedi-lhe que me ajudasse a obter um contrato para espetáculos na frente.
— Porquê? Os contratos desse gênero a interessam do ponto de vista pecuniário?
A guerra, I

Nessa mesma noite chegou à estação de correio da pequena cidade um telegrama urgente, concebido nos seguintes termos: "Subalterno Vierbein Stop Interromper imediatamente a licença Stop Pôr-se imediatamente em marcha Stop Witterer, capitão, chefe de bateria Stop.
O capitão Witterer, já muito tocado, estava sentado em frente do comandante da infantaria. O estômago deste parecia um buraco imenso que não se conseguia encher. Bebia, bebia e era como se não produzisse qualquer efeito.
— Durmo muito pouco — disse o comandante.
— Os soldados não precisam dormir muito — disse Witterer, que morria de fadiga. E Krause, sentado ao lado dele, acenou a cabeça a custo.
— Merda! — exclamou o comandante. — Se durmo pouco, é porque não posso dormir mais. Quem é que poderia dormir nesta porcaria em que estamos? Mas um destes dias vou-me abaixo — estarei maduro para o manicómio. Regozijo-me só de pensar nisso.
— Na noite em que isto vai recomeçar — disse Witterer, procurando sempre desembaraçar-se do seu convidado. — Nessa altura teremos necessidade de todas as nossas energias.
— Na noite que vem recuaremos em ordem, ao menos uma vez. Se o russo não nos perseguir, será um passeio.— Receia complicações, meu comandante? — perguntou Witterer, cuja atenção despertara subitamente. Krause, como a sombra de seu chefe, esticou a orelha.
— A guerra é feita só de complicações — disse o comandante, indiferente.
— Em todo o caso, os nossos chefes saberão...
— Merda! — disse o da infantaria, convicto, engolindo um copo cheio e aguardente. — Fazer a guerra sobre mapas é coisa completamente diferente de estar na lama. O sangue não é lápis encarnado. Aqui rebenta-se; lá apaga-se com a borracha. Um vomita na neve os pulmões estoirados; o outro vomita porque bebeu vinho tinto em demasia.
— E se o Russo nos perseguir realmente?
— Neste caso divertir-se-á outra vez a disparar tiros de canhão, meu amiguinho.
[Fragmento: Kirst, Hans Hellmut. 08/15, a guerra. Publicações Europa-América, Lisboa, pp. 302-3.]
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Mal dizer
"Eu sou um roceiro, um legítimo jagunço do interior de Minas: matuto, quadrado e bruto; desses que odeia gente com alegria de viver. Elas fedem.
Se você conversou comigo algumas vezes e só por isso acha que eu sou seu amigo: eu não sou. Se você nem conversou comigo e mesmo assim acha que eu sou seu amigo: eu não sou. Me deixe em paz. Não gosto de gente. Amigo demais sobra."
Aprecio muito dizeres rudes e ranzinzas. Isso sim é que é uma bela forma de prosa. Aguardem.
Pequenas notas espirais
- Dante Worlds da Universidade do Texas em Austin, uma coisa meio bizarra feita sobre o trabalho de Dante, é bonito e interessante, coisa bem feita.
- Projetc Gutenberg, livros eletrônicos gratuitos.
- Bibliomania, mais livros gratuitos, textos em Html, fáceis de serem carregados.
- Short Stories, bastante interessante. Variados gêneros, até alguns pra lá de esquisitos, como hiperficção, baseado em vários tipos de mídia e recursos gráficos. Espero que não chamem esse tipo de tralha de 'literatura'. Dá pra passar um bom tempo por lá.















