sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Estupor

Clave de Fá
Tiveste alento num dia, mas noutro, essa toada infame, o tempo quente, sufocante, que te põe em torpor. Vês e lá está; ela se apresenta sempre a ti, meu tolinho, cativante por ser ela mesma o que é, não precisa do menor esforço. Tu ficas lá, vidrado, boçal, com um ar imbecilizado, sem saber o que dizer, como se portar. Em alguns dias tens lá sorte. Consegues articular umas poucas frases aceitáveis, impressionando toda a gente com a tua superação. Mas tua indignidade, tua falta de modos, tua completa incompetência em socializar-te por aí, te levam, felizmente, à posição que mereces. Quem dera tu fosses um misantropo, ao menos te faria um ente merecedor da indiferença alheia; mas não, mereces escárnio e mesmo isso te seria pouco. Não és sequer digno dos olhares que as pessoas te lançam ao acaso.

Talvez tu penses que sou mal. Ora, nem que eu fosse, ainda que tu sejas merecedor de muitas maldades. Desejo até que melhores. Se bem que na idade em que estás, ainda que fisicamente jovem, tua teimosia é digna dos anciões. Teu primeiro quarto de século findou sem verdejar, dele nada brotou, fez-se já podre. Daqui em diante, tu não melhoras, não podes mais te reeducar. Talvez, como a um cão, possam te adestrar.

Ainda que digam que tu sejas semelhante à alguma poeirenta personagem de livros mofados, lembre-te que tua nulidade te sobrepuja inteiramente. Assim te digo: - os olhos amendoados, aquela voz delicada, em cujo timbre encontras a tua solene redenção, jamais será tua, jamais te será sussurrada nos ouvidos. Mesmo que teus anseios tenham lá algo em comum, porque ainda ficas a pensar nisso? Não te fartas com tanta tolice?

Lembre-te do teu lugar poeirento, de palavras e jargões que ninguém falam, com teu método pretensioso, com tuas fundamentações que, quiçá úteis, são sempre recebidas com indiferença ou, dada a antipatia que brota de ti, repulsa. Não notaste ainda? Meu velho Ziemssen, nem tuas missivas de amor merecem qualquer atenção.

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