sexta-feira, 22 de julho de 2011

176.

Querida Cecília,

hoje o tempo virou, a tarde está cinza, num tom escuro, quase grafite, embora os dias estejam já um pouco mais longos do que no início do inverno. O dia está úmido, de raro em raro chuvisca; por aqui andam a podar as árvores e o barulho da motosserra se faz onipresente, há caminhões lotados de galhos, ramos e troncos partidos. Gosto desses dias acinzentados e frios, mas odeio quando eles se vão, porque no inferno pouco chove, pouco venta, os dias ficam mornos, às vezes quentes, sem nuvens; dias ensolarados que se estendem, no inverno, por semanas; o céu de azul passa a uma tonalidade acinzentada; a cidade passa a ter um horizonte acastanhado, o ar é seco, os olhos ardem, a respiração é dificultosa. Tudo isso é tão diferente do que é a cidade em abril, o céu, não sei porque, tem um azul intenso, mais escurecido, o clima é morno, as chuvas ainda são comuns, águas de março teimosas no abril - egoísta eu fui, não relatei a ti o quanto o mês de abril foi agradável; somente agora, no inverno, te relato as impressões de outono; não foi por mesquinharia, andava a ser cansativamente piegas. Abril tem esse azul no céu, as tardes são luminosas, os dias têm a duração equilibrada; a cidade, nos últimos tempos, apesar de ainda julgá-la inabitável, anda melhor. O centro tem permanecido limpo; aquelas fachadas e letreiros de propaganda multicoloridos não existem mais, mas parece que as fachadas, todas elas, finalmente foram recompostas, o comércio ambulante que apinhava as ruas tornando-as intransitáveis foi, ao que parece, regulamentado, são poucas as barracas, não há mais corre-corre quando a polícia é avistada; andar, agora, é apetecedor, embora mazelas persistam em certos lugares de notória má fama.

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