domingo, 3 de abril de 2011

66.

 Querida Cecília,

lembrei-me de ti, com ternura e encabulamento na falta de uma palavra benquista, cesso, desisto em favor da prosa russa.
"Tenho uma velha avó. Fui para sua casa quando era ainda uma menina muito pequena, porque minha mãe e meu pai tinham morrido. É de pensar que antes minha avó era rica, porque hoje se recorda de dias melhores. Ela me ensinou francês e depois contratou-me um professor. Quando eu tinha quinze anos (agora eu tenho dezessete) parei de estudar. Foi nessa época que fiz uma travessura; o que eu fiz não vou lhe dizer, basta saber que o delito era pequeno. Uma manhã a avó me chamou e disse que, como era cega, não podia me vigiar; então pegou um alfinete e prendeu meu vestido ao dela, dizendo que ficaríamos assim a vida toda se, entenda-se, eu não me comportasse melhor. Numa palavra, nos primeiros tempos não havia como me afastar: era trabalhar, ler, estudar, tudo ao lado da avó. Uma vez tentei usar de astúcia e convenci Fiokla a ficar no meu lugar. Fiokla é nossa criada; ela é surda. Fiokla tomou o meu lugar numa hora em que a avó adormeceu, eu fui à casa de uma amiga ali perto. Mas a coisa acabou mal. A avó despertou e perguntou algo, pensando que eu estava calmamente sentada no lugar. Fiokla viu que a avó estava perguntando, mas não entendia o quê; ficou pensando e pensando no que fazer e então soltou o alfinete e deitou a correr..."

Fiódor Dostoiévski, Noites brancas. Trad. Nivaldo Monteiro. Ed. 34, São Paulo, 2007, p. 45-6.
Soa-me maviosamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário