domingo, 27 de março de 2011

59.

Não sei como consegues, querida,

mas eu definitivamente me irrito deveras com a TV. Não consigo esboçar um sorriso com programas que supostamente deveriam fazer toda a gente rir. Sempre te disse que não percebo comicidade com o simples fato de ver uma pessoa a cair; e fico incomodado porque se o tipo fenece diante leis de Newton, isto normalmente é acompanhado de dor, assim penso cá com meus botões: tem que ser um tipo assaz escroto para se comprazer na dor alheia. Isto está bem além do escarnecimento. E, à noite, quando vem os filmes ou programas jornalísticos, o nível de ambos é atroz, os primeiros me tomam por um imbecil, um completo estúpido; se eu for um pouco mais otimista, talvez, se possa dizer que eles pensem que sou um adulto infantilizado; os jornais, ah, dão as novas com a profundidade acessível a uma criança de oito anos. De modo que não tenho o que ver. Talvez algum programa esportivo com o devido cuidado de calibrar o áudio de modo a voz dos narradores, mormente néscios disparatados, não me chegar aos ouvidos. Só que tudo isso acaba por ter uma implicação algo grave: quando no trabalho ou na universidade me deparo com os colegas a manzanzarem sobre o que foi visto na TV. Na universidade isso me impressiona ainda mais, e lá, mais que no trabalho, a imbecilidade é algo exclusiva pois tais colegas têm, em sua maioria, o grande privilégio de, por exemplo, ver a engelhada Maitê Proença ou assistir Manhattan Connection na TV paga. Isto quer dizer que ela pagam para ouvir disparates o que é algo muito além de idiotice. Ora, sim, poderão objetar que há filmes a serem vistos, que há programas especializados, seriados, et cætera. Bem, como há meios simples acessíveis a ter esse conteúdo gratuitamente, insisto categoricamente que é burrice pagar por isso. E todos os dias me deparo com essa gente a falar sobre programas, coisas que não vi, que não me participam e, pior, que me parecem risíveis dado a persistente simplicidade infantil. Me pergunto, sempre, será que para urdir novas relações sociais terei de fazer figura de parvo?

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